Olho uma mesa no bar, vários diferentes copos nela. Tem copo grande, copo médio, copo pequeno. Copo com bebidas geladas, bebidas na temperatura ambiente, bebidas com gelo. Na mesa brasileira, tem amendoim, tem mandioca frita, tem frango à passarinho, tem fumeiro, tem pimenta de cheiro.
Estamos olhando para uma mesa com cervejas e cachaças. Uma a bebida dos brasileiros, a outra a bebida nacional. A cerveja e a cachaça são duas bebidas icônicas do Brasil, têm uma presença marcante nos bares e mesas de botecos de norte a sul, leste a oeste. A cerveja chegou por meio da imigração e se tornou uma bebida da celebração, a cachaça carrega o peso de ser o destilado genuinamente brasileiro, com raízes profundas na cultura e na história do país.
Apesar de diferentes em essência, uma só fermentada e a outra ainda destilada, elas compartilham um espaço cultural e gastronômico, social. Dá para pensar em complementação, especialmente quando pensamos em harmonizações.
Essas bebidas desempenham papéis distintos em uma mesa, mas que, juntas, oferecem uma experiência rica e variada para quem aprecia a boa mesa, sabores e complexidades. Nos botecos, a prática de alternar entre goles de cerveja e doses de cachaça é uma forma de valorizar o sabor e as características de cada uma. A forma ideal de fazer isso é também observar o que cada uma traz ao nosso sensorial.
E é o tipo de combinação que precisa de moderação, convenhamos.

A cachaça, com seu teor alcoólico mais elevado e perfil mais intenso, torna-se um complemento interessante ao frescor e à leveza da cerveja, criando um contraste que enriquece o paladar. A cerveja em seus diferentes estilos, a cachaça pura ou maturada em barris de madeira ou muitas vezes como ingrediente de coquetéis: Caipirinha, Rabo de Galo, Macunaíma, Banzeiro e tantos outros ganhando destaque mundo a fora também.
Se por um lado a cerveja artesanal brasileira traz a diversidade de sabores de lúpulos, maltes, fermentação e até ingredientes como as frutas e outros adjuntos, a cachaça oferece uma complexidade que advém dos variados processos de produção, incluindo o envelhecimento em diferentes tipos de madeira e fermentações com leveduras nativas. Esse envelhecimento confere à cachaça características únicas, que vão desde notas de caramelo e baunilha, nas madeiras como o carvalho importado, e até toques de especiarias e frutas, em madeiras nativas brasileiras como amburana e jequitibá. A cachaça de alambique tem muitas possibilidades a ofertar.
Ao harmonizar cervejas e cachaças, é possível explorar semelhanças e contrastes entre elas. Por exemplo, uma cerveja de trigo com seu sabor único e refrescante combina bem com uma cachaça branca, sem passar em madeira, tem sabor mais fresco, da cana, criamos assim uma sensação equilibrada. Já uma cerveja escura, como uma porter, traz características de malte torrado que combinam com uma cachaça envelhecida em jaqueira, onde as notas amadeiradas da cachaça se complementa e se intensifica com as notas de tostado da cerveja. O resultado é uma experiência harmoniosa que valoriza tanto o processo artesanal de cada bebida quanto os sabores característicos de ambas.

As cervejas e as cachaças não harmonizam apenas entre si, mas também se destacam na relação com a comida, um ponto essencial à mesa dos barzinhos e nos churrascos do final de semana. Pratos típicos como carnes assadas, torresmo, coxinha, jiló e linguiça defumada ganham um novo significado quando acompanhados de uma cerveja ou uma cachaça adequada.
A cerveja, especialmente as mais amargas ou com acidez refrescante, funcionam bem para pratos gordurosos, ajudando a limpar o paladar. Já a cachaça, com sua intensidade, pode destacar sabores de pratos mais robustos e salgados.
Por exemplo, o torresmo – clássico dos botecos – se transforma em um acompanhamento ainda mais interessante quando acompanhado por uma cachaça de sabor frutado ou com leve dulçor de madeira, realçando o sabor da carne suína e das especiarias. Da mesma forma, uma cerveja artesanal do tipo Catharina Sour, conhecida por sua leve acidez e frutado, pode ser a escolha perfeita para equilibrar o sabor de um queijo de coalho assado, criando uma combinação que exalta os contrastes entre os ingredientes.

Assim, ao integrar cerveja e cachaça na mesma mesa, estamos celebrando a pluralidade das bebidas brasileiras, sua riqueza gastronômica e seu papel na identidade do país. Seja num brinde de boteco ou numa harmonização cuidadosa, cerveja e cachaça mostram que, juntas, são mais que bebidas – são parte do jeito brasileiro de partilhar momentos e sabores.
Estarei por aqui, no Mapa da Cachaça, falando sobre as cervejas, as cachaças, as duas juntas, os sabores e as sensações. Saúde!
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Desde 2002, Bia Amorim atua em hospitalidade, sommelieria, educação, marketing e operações. Foi gerente de marketing na Cervejaria Colorado, fundou a Por Obséquio e oferece consultoria em Alimentos & Bebidas. É Publisher da Farofa Magazine e lançou o livro “Guia da Sommelieria de Cervejas” em 2022.