Notícias

Circuito das Águas Paulista conquista Indicação Geográfica para a cachaça de alambique

O INPI concedeu a Indicação de Procedência à cachaça de alambique do Circuito das Águas Paulista, reunindo nove cidades da Serra da Mantiqueira paulista. Uma região que o Guia Mapa da Cachaça 2024 já apontava como merecedora do selo.
canavial campanari

O INPI concedeu a Indicação de Procedência à cachaça de alambique do Circuito das Águas Paulista, reunindo nove cidades da Serra da Mantiqueira paulista. Uma região que o Guia Mapa da Cachaça 2024 já apontava como merecedora do selo.

Em 21 de julho de 2026, na Revista da Propriedade Industrial nº 2898, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu a Indicação Geográfica Cachaça do Circuito das Águas Paulista — a primeira Indicação de Procedência da região para o destilado que já a tornou conhecida muito antes de qualquer selo. São nove cidades encaixadas na Serra da Mantiqueira paulista que passam, agora, a ter um nome protegido por lei para aquilo que seus alambiques fazem há quase um século.

maira campanari produtora presenten no Circuito das Águas Paulista
Maira, produtora da cachaça Campanari de Monte Alegre do Sul, interior de São Paulo e parte da IG do Circuito das Águas Paulistas

Onde nasce a cachaça premiada de São Paulo

O Circuito das Águas Paulista foi criado em 4 de novembro de 2004, na porção leste do estado, numa região historicamente conhecida como “Bem Viver”. Em 2005, a Lei nº 11.107 permitiu que os municípios se organizassem num Consórcio Intermunicipal, hoje formado por nove cidades: Águas de Lindóia, Amparo, Holambra, Jaguariúna, Lindóia, Monte Alegre do Sul, Pedreira, Serra Negra e Socorro. Juntas, elas somam 177.791 hectares de área delimitada — um território de estâncias hidrominerais, ar de montanha e cana que sobe pelas encostas.

A vocação para a cachaça não é recente nem improvisada. O registro documentado mais antigo remonta a 1929, quando Giuseppe Benedetti destilou a primeira cachaça registrada da região — herança que passou de geração em geração e transformou o Circuito num polo de referência. Hoje são mais de 350 alambiques e produtores em atividade, com uma produção de escala reduzida, de tradição familiar e profundamente ligada ao turismo rural.

Para o Mapa da Cachaça, o reconhecimento não é surpresa — é confirmação. Já em 2024, no Guia Mapa da Cachaça, ao mapear os territórios da cachaça brasileira, apontamos o Circuito das Águas e as cidades serranas paulistas entre as regiões que mereciam o selo. Escrevemos, à época, que “as regiões aqui mapeadas (…) merecem o reconhecimento como Indicação Geográfica pela relevância que têm como territórios da cachaça”. Registramos ali a herança das propriedades familiares de Monte Alegre do Sul, Amparo, Socorro, Serra Negra e Lindóia, iniciada no começo do século passado justamente na esteira da crise do café de 1929. Dois anos depois, o INPI referendou a leitura. Não é a primeira vez que a região convence o Instituto: o Circuito já detém Indicação Geográfica para seus cafés especiais — a cachaça soma-se, agora, a esse patrimônio.

O que significa ser Indicação de Procedência

A cachaça do Circuito das Águas foi reconhecida na espécie Indicação de Procedência (IP) — a mesma modalidade de Salinas, em Minas. Foi por essa mesma porta que Paraty, no Rio de Janeiro, entrou para a história como a primeira região do país a registrar cachaça como IG, antes de ser elevada à Denominação de Origem em 2024.

A Indicação de Procedência atesta que um nome geográfico se tornou conhecido como centro de produção de determinado produto — aqui, a cachaça de alambique. É diferente da Denominação de Origem (DO), que exige provar que as qualidades do produto derivam essencialmente do terroir, dos fatores naturais e humanos daquele lugar específico. A IP protege a fama construída ao longo do tempo; a DO protege o vínculo científico entre a terra e o líquido. Para entender como esse reconhecimento se encaixa na moldura legal do destilado, vale revisitar a legislação da cachaça.

Na prática, o selo não é um troféu de vitrine: ele só pode ser usado por quem produz dentro da área delimitada, respeita o Caderno de Especificações Técnicas e se submete ao controle do Conselho Regulador da APCCAP — a Associação de Produtores de Cachaça de Alambique do Circuito das Águas Paulista, que protocolou o pedido em agosto de 2025 e conduziu o processo até a concessão.

O saber-fazer que o selo protege

O Caderno de Especificações Técnicas, aprovado pelos produtores em dezembro de 2022, desenha com precisão a cachaça que pode carregar o nome do Circuito. É um retrato do ofício mais do que uma lista de regras.

A cana não pode ser transgênica, não se admite queima na lavoura e o corte é feito com o canavial maduro, uma vez por ano. Do caldo à garrafa, a cachaça precisa nascer, ser elaborada, envelhecida e engarrafada dentro dos nove municípios. A fermentação parte de fermento natural — a chamada “levedura caipira” —, o único obrigatório pelo caderno. No preparo do pé-de-cuba, o documento permite (sem obrigar) o uso de aditivos nutricionais tradicionais do ofício, como fubá, quirera de milho ou farelo de arroz, com tempo de preparo de até quinze dias. A fermentação, por fim, acontece em 24 a 48 horas.

A destilação exige alambique e serpentinas de cobre, com o destilado separado nas três frações clássicas: a cabeça (cerca de 7,5% do volume) e a cauda (cerca de 10%) descartadas para outros destinos, ficando apenas o coração, a verdadeira cachaça de qualidade. Nada de adição de açúcar. A graduação final fica entre 38 e 48 ºGL, dentro dos padrões do MAPA.

Há, ainda, um cuidado com o entorno que costuma passar despercebido em rótulos: o bagaço seco como combustível preferencial da fornalha, a proibição de descartar vinhoto bruto em cursos d’água e a proteção das matas ciliares e nascentes — coerente com uma região que vive, também, de suas águas.

jornal monte alegre de minas Circuito das Águas Paulista conquista Indicação Geográfica para a cachaça de alambique

Onde a cachaça encontra o turismo

O que torna o Circuito das Águas Paulista singular é que a cachaça ali não se separa da paisagem. A região articula a bebida com o turismo rural por meio de iniciativas como a “Rota da Cachaça”, o “Festival da Cachaça” — que gira entre os municípios — e a “Trilha da Cachaça”, roteiro que leva visitantes aos principais alambiques para visitas e degustações. Entre esses nove nomes está Socorro, um dos endereços mais tradicionais do destilado paulista.

Com a Indicação Geográfica, esse roteiro ganha um selo que o mercado — e o turista — aprendem a reconhecer. É o mesmo movimento que se viu em outras regiões brasileiras: Areia, na Paraíba, Viçosa do Ceará e Morretes, no Paraná, todas somando território, tradição e proteção jurídica num mesmo gesto.

O Brasil desenha, aos poucos, um mapa de suas cachaças de origem. A do Circuito das Águas Paulista acaba de entrar nele — não como novidade, mas como reconhecimento oficial de algo que a Serra da Mantiqueira já sabia desde 1929. Vale a viagem para descobrir.

Box técnico

Indicação GeográficaCachaça do Circuito das Águas Paulista
EspécieIndicação de Procedência (IP)
ProdutoCachaça de alambique
ConcessãoRPI nº 2898, de 21 de julho de 2026 (INPI)
RequerenteAPCCAP — Associação de Produtores de Cachaça de Alambique do Circuito das Águas Paulista
Municípios (9)Águas de Lindóia, Amparo, Holambra, Jaguariúna, Lindóia, Monte Alegre do Sul, Pedreira, Serra Negra e Socorro (SP)
Área delimitada177.791 hectares, na Serra da Mantiqueira
Graduação alcoólica38 a 48 ºGL a 20 °C
ProcessoDestilação em cobre, fermento natural, sem adição de açúcar
ProdutoresMais de 350 alambiques na região
Registro históricoPrimeira cachaça documentada em 1929 (Giuseppe Benedetti)

Fontes oficiais: Revista da Propriedade Industrial nº 2898 (INPI, 21/07/2026) — despacho de concessão código 395, relatório de exame técnico e Caderno de Especificações Técnicas da APCCAP.

Perguntas frequentes

Descubra mais

A Indicação Geográfica garante que a cachaça é de melhor qualidade?

Não exatamente. A IG não é uma nota de degustação nem um ranking sensorial: ela certifica a origem e a reputação de um território, não o desempenho de um rótulo específico. O que ela assegura é que a cachaça foi produzida dentro da área delimitada e segundo o Caderno de Especificações Técnicas da região. A excelência sensorial continua sendo mérito de cada alambique. Para entender o que a lei de fato exige de uma cachaça, vale ler a legislação da cachaça.

Quantas regiões de cachaça já têm Indicação Geográfica no Brasil?

O Circuito das Águas Paulista entra num grupo ainda pequeno e seleto. Antes dele, o reconhecimento já havia chegado a nomes como Salinas, em Minas Gerais, Viçosa do Ceará, Morretes, no Paraná, e, mais recentemente, Areia, na Paraíba — além de Paraty, a pioneira. Cada nova IG amplia o mapa das cachaças de origem certificada do país.

A cachaça do Circuito das Águas Paulista pode se tornar Denominação de Origem?

Em tese, sim — é o caminho natural de uma Indicação de Procedência que amadurece. Foi exatamente o que fez Paraty, que começou como IP em 2007 e, em 2024, foi elevada a Denominação de Origem. Para dar esse passo, a região precisaria comprovar cientificamente que as características da sua cachaça derivam essencialmente do terroir local — solo, clima e água. Por ora, o Circuito das Águas é uma Indicação de Procedência.

Qualquer produtor das nove cidades pode usar o selo no rótulo?

Não automaticamente. Estar dentro da área delimitada é apenas a primeira condição. O produtor também precisa seguir o Caderno de Especificações Técnicas, submeter-se ao controle do Conselho Regulador da APCCAP e estar regularizado junto aos órgãos competentes — cachaça é bebida fiscalizada. Um alambique informal, mesmo instalado em Socorro ou Serra Negra, não poderá estampar a Indicação Geográfica enquanto não se legalizar.

Como reconhecer uma cachaça com a Indicação Geográfica do Circuito das Águas Paulista?

Pelo selo oficial de Indicação de Procedência aplicado ao rótulo, de uso restrito aos produtores autorizados da região. Na dúvida, a origem declarada deve corresponder a um dos nove municípios da área delimitada: Águas de Lindóia, Amparo, Holambra, Jaguariúna, Lindóia, Monte Alegre do Sul, Pedreira, Serra Negra ou Socorro. O selo é a garantia de procedência — não um enfeite gráfico.

Produtor deste artigo

alambique de cobre Fina Flor
Produtor deste artigo

Fina Flor

Cachaça Fina Flor – Amparo, SP
Produtor deste artigo

Campanari

Estrada Municipal [1] – Monte Alegre do Sul, SP
Quem assina

O autor

Logo Mapa da Cachaça Transparente
Autor · Comunidade Mapa da Cachaça
O Mapa da Cachaça é um projeto cultural e educativo criado com o objetivo de divulgar e valorizar a cachaça, que é um patrimônio cultural e um dos símbolos da identidade brasileira.
Da mesma marca

Cachaças Campanari

Santo Mario Gentileza Ouro
Yaguara Prata
Pioneira Prata
Prosa Caipira
Pinocos Amburana
Vibra Brasil Prata
Histórias de alambique no seu e-mail

Visitas a produtores e avaliações do painel — toda semana, sem spam.