O curioso nome do destilado brasileiro: é cachaça, pinga ou aguardente de cana?

  • Publicado 1 ano atrás

“Cachaça”, “pinga” ou “aguardente de cana”, cada nome revela histórias, tradições e significados culturais únicos.

O Mapa da Cachaça me possibilitou viajar pelo Brasil e, ao longo dos anos, descobri que a cachaça é muito mais do que uma bebida: é um reflexo da cultura e da história do nosso país. Como editor do Mapa, já visitei inúmeras destilarias, conversei com produtores e mergulhei em tradições que ajudam a contar a história desse destilado genuinamente brasileiro. Uma coisa que sempre me chamou a atenção foi a variedade de nomes que a cachaça recebe em diferentes regiões. Esses termos carregam significados que vão muito além da bebida em si — falam de hábitos, crenças e modos de vida profundamente enraizados na cultura brasileira.

Pinga, aguardente de cana ou cachaça?

Em São Paulo, por exemplo, a palavra “pinga” costuma ser usada de forma pejorativa, associada a bebidas de qualidade duvidosa, produzidas em grande escala ou de maneira informal. Mas em Paraty, um dos berços mais tradicionais da cachaça, ela ganha um significado completamente diferente. Ali, “pinga” é uma celebração ao processo artesanal. Lembro-me bem de quando visitei a Cachaça Coqueiro, da família Mello, e vi um grande letreiro na entrada anunciando: “Pinga Coqueiro”. Para quem conhece o processo de destilação em alambique de cobre, o nome faz todo o sentido: a cachaça pinga lentamente pela bica do alambique, resultado de uma produção cuidadosa.

E a Festival da Pinga de Paraty que acontece desde a década de 80, e que nos anos 2000 mudou o nome para Festival da Cachaça, Cultura e Sabores de Paraty, talvez pela necessidade de cativar os turistas que torciam o nariz pelo termo mais regional?

Já a palavra “cachaça” se tornou a palavra oficial para o destilado no Brasil e é reconhecida internacionalmente. Países como México e EUA reconhecem a nossa bebida como cachaça. No entanto, essa escolha nunca foi simples. Historicamente, “cachaça” carregava um estigma, sendo associada a uma bebida de baixa qualidade. Uma das histórias diz que cachaça deriva de uma aguardente de uva portuguesa. A palavra faria referência ao cacho de uva, assim como bagaceira – outra aguardente de uva popular em Portugal – se refere ao bago da fruta.

Se pudesse voltar ao passado, (e se alguém me perguntasse) talvez eu tivesse votado em “caninha” para nome oficial — um termo mais carinhoso e fácil de pronunciar em várias línguas. Seria como a vodka na Rússia que na tradução significa: aguinha.

Durante uma visita ao norte de Minas Gerais, percebi algo interessante: muitos produtores preferem usar a expressão “aguardente de cana” nos rótulos de suas garrafas. Quando perguntei a um produtor de Salinas sobre essa escolha, ele me explicou que, na região, “cachaça” era associada aos destilados de coluna fabricados mais ao sul do Brasil, enquanto “aguardente de cana” remetia à produção artesanal e tradicional, em alambiques de cobre. Foi uma explicação que fez todo o sentido e me ajudou a compreender como as palavras carregam identidades culturais diferentes em cada canto do país.

Os apelidos carinhosos estão também por todo canto. Quem nunca ouviu falar de “água que passarinho não bebe”, “paixão”, “samba” ou “mé”? São expressões que traduzem afeto, humor e criatividade. Cada nome conta uma história e carrega um pouco do jeito brasileiro de lidar com a vida, com suas festas e seus desafios.

Essa diversidade linguística é um dos muitos aspectos que fazem da cachaça algo tão especial. Dependendo de onde você está, uma mesma palavra pode soar como um elogio ou uma crítica. Cada nome é uma peça de um mosaico cultural fascinante, que mostra como o Brasil é múltiplo e complexo.

No final das contas, seja chamada de “pinga”, “aguardente”, “caninha” ou “cachaça”, nossa bebida nacional conquistou o Brasil e continua a encantar o mundo. Essa pluralidade de termos e significados é uma prova de que a cachaça é muito mais do que uma bebida destilada — é um símbolo cultural que reúne história, tradição e paixão. E é essa mistura de significados que me faz continuar explorando e contando suas histórias. Afinal, no Brasil, até o jeito de chamar a cachaça já é uma forma de celebrar sua existência.

Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.

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