
A história da Cachaça Serra das Almas começa a poucos quilômetros do centro histórico de Rio de Contas, em um canto privilegiado da Chapada Diamantina. É ali, na Fazenda Vaccaro, que o tempo parece ter outro ritmo — guiado pelas estações, pelo cuidado com a terra e pela sabedoria de quem vive dela.
Marcos Vaccaro, catarinense de origem e baiano por escolha, chegou à região no fim dos anos 1990 trazendo não só conhecimento técnico, mas um olhar sensível para o potencial do lugar. Em 2000, lançou sua cachaça. Dois anos depois, a Serra das Almas se tornava a primeira cachaça orgânica certificada do Brasil, reconhecida pelo Instituto Biodinâmico (IBD).



A cana-de-açúcar, da variedade “Maria Bonita”, cresce em lavouras orgânicas, cercada por montanhas e banhada pelo clima ameno que sopra do Pico das Almas, terceiro ponto mais alto do Nordeste com 1.958 metros de altitude. O terroir faz seu papel, mas o que dá alma à cachaça é a forma como tudo é conduzido: com técnica e respeito ao tempo da terra.
A colheita é feita à mão, com olhar treinado para escolher apenas os colmos no ponto certo. Em até 24 horas, essa cana já está sendo moída em pequenos lotes. Frescor absoluto. Açúcar no auge. Um cuidado que vem do próprio Vaccaro e dos agricultores da comunidade, com quem ele construiu uma relação de parceria ao longo de décadas.
A fermentação segue o mesmo espírito: nada de leveduras comerciais. Aqui, quem manda são os micro-organismos selvagens que habitam o ambiente. O caldo fermenta em dornas abertas de inox, com um “pé de cuba” feito com farelo de trigo, arroz e milho moído — um toque artesanal que carrega o DNA da região. Em dois ou três dias, o que era caldo vira um vinho de cana leve, pronto para ser destilado.





A destilação acontece em alambiques de cobre tipo “cebolão” de 800 litros, aquecidos com caldeira. Só o coração do destilado — a parte mais pura — é aproveitado. O resto vira adubo ou combustível. Nada se perde. Tudo volta para a terra. Por ano, são destilados 50 mil litros de cachaça.
Depois, a cachaça descansa em tanques de inox ou segue para armazenamento em madeira: garapeira ou carvalho. Foi Vaccaro quem trouxe da sua terra natal o uso da garapeira (ou grápia), madeira típica do Sul do Brasil. A Serra das Almas Garapeira foi a primeira que degustei armazenada nessa madeira brasileira. Ao encontrar o terroir baiano, ela revelou um potencial surpreendente. Hoje, a Serra das Almas armazenada em garapeira é considerada uma das melhores expressões dessa madeira no país — com notas florais, levemente medicinais e um adocicado remetendo à baunilha.

A combinação entre saber técnico, práticas agroecológicas e valorização da cultura local já rendeu para Vaccaro prêmios importantes: melhor projeto ambiental da Bahia, em 2003, e melhor projeto social do estado, em 2014.
Em 2009, a cachaça que brota dos alambiques da Chapada ganhou um novo nome para atravessar fronteiras: Abelha. A marca foi fundada pelos irmãos ingleses Hal e Tom Stockley, ao lado de Anthony Goh e do próprio Marcos Vaccaro — unindo juventude, ousadia, compromisso com a sustentabilidade e do comércio ético.
O nome nasceu da observação da própria produção da cachaça: durante a moagem, é comum ver abelhas nativas rodeando o caldo fresco da cana, atraídas pelo doce natural. Esse símbolo de equilíbrio entre natureza e produção virou marca e conceito.


Para dar forma visual à ideia, a artista baiana Ananda Nahu foi convidada para criar o rótulo. Suas cores vivas e traços marcantes traduzem a energia brasileira com poesia, força e sem clichês.
Hoje, a Abelha está presente em bares e prateleiras da Europa e dos Estados Unidos, levando com ela o sabor da Serra das Almas e da Chapada Diamantina — e a história de um jeito responsável de produzir, cuidar e celebrar uma categoria de destilados ainda pouco conhecida fora do Brasil, mas que tem tudo para crescer.

Visitar a Fazenda Vaccaro é muito mais do que conhecer onde a Serra das Almas é feita. É mergulhar em um estilo de vida que une simplicidade e consciência ecológica. A apenas 9 km de Rio de Contas, o espaço abre suas portas para quem quer viver o campo com todos os sentidos.
A proposta é o que eles chamam de hospedagem camponesa: chalés aconchegantes construídos sobre as árvores, com vista para a natureza, som de rio e cheiro de mato. As acomodações recebem de duas a seis pessoas e incluem um café da manhã feito com ingredientes colhidos na agrofloresta.


A estrutura de lazer contempla todos os públicos. Há piscinas naturais com toboágua, tirolesa, parede de escalada, salão de jogos e trilhas que levam a três mirantes com vistas deslumbrantes da região. Para quem quer passar só o dia, o sistema Day Use permite aproveitar tudo isso com uma taxa acessível.
Contato para visitação e hospedagem: +5577981523552
Safra: 2003 lote 63
Teor alcoólico: 39%
Preço: R$ 55

A Serra das Almas Prata é uma cachaça branca sem passagem por madeira, mas com tempo de descanso que faz toda a diferença: essa versão que avaliei ficou três anos armazenada em dornas de inox de dois mil litros.
Visualmente, é incolor, brilhante e translúcida, como uma boa branquinha deve ser. No nariz, surpreende pela complexidade: as notas iniciais remetem a frutas cristalizadas e cítricos frescos, como limão e laranja, acompanhadas por um toque elegante de amêndoas.
Na boca, revela um perfil diferente do que promete no aroma. A acidez cítrica dá lugar a uma paleta mais vegetal e terrosa, com ervas frescas, especiarias como tomilho e gengibre, além de nuances doces de baunilha e o retorno marcante das amêndoas, agora em forma de castanha torrada.
O corpo é médio, com sensação fresca e textura levemente amanteigada, papel aqui do longo repouso em inox, trazendo mais delicadeza ao paladar.
O final é equilibrado e elegante: começa levemente doce e herbáceo, mas termina com um agradável amendoado e uma picância sutil, que convida ao próximo gole. Uma cachaça que traduz o cuidado e a técnica da Serra das Almas, entregando frescor, complexidade e identidade.
A Serra das Almas Prata é minha cachaça favorita entre as produzidas por Marcos Vaccaro. Mais do que uma expressão sensorial refinada, ela carrega um valor histórico que merece ser lembrado: foi com ela que Vaccaro conquistou, há 25 anos, o primeiro selo de produto orgânico para uma cachaça no Brasil — num tempo em que palavras como sustentabilidade ou ESG ainda passavam longe das pautas do mercado.
O visionário catarinense Marcos Vaccaro segue deixando sua marca no universo da cachaça, com um trabalho sólido que projeta a Chapada Diamantina além das fronteiras do Brasil. Para mim, está claro: é por meio de trajetórias como a dele — construídas com coerência e mais de três décadas de dedicação — que a cachaça vai conquistar o reconhecimento que merece no mundo.
Fotos: Instagram Abelha e acervo Mapa da Cachaça
No Guia Mapa da Cachaça 2024, a Serra das Almas Prata levou 90,5 pontos e o Selo 4 Estrelas entre as brancas sem madeira, e a Reserva Especial alcançou 89,5 pontos e o Selo 4 Estrelas na categoria extra premium em carvalho. A Serra das Almas Ouro, avaliada sob o nome Garapeira, recebeu 87,5 pontos e o Selo 3 Estrelas entre as armazenadas em madeira brasileira.
Para conhecer o destilado sem madeira, comece pela Serra das Almas Prata, branca que descansa três anos em dornas de inox e é a favorita do Mapa da Cachaça entre os rótulos da casa. Depois vá para a Serra das Almas Ouro, madurada em garapeira, madeira brasileira que a marca ajudou a popularizar. Para fechar, a Reserva Especial, envelhecida por oito anos em carvalho europeu.
A Serra das Almas Ouro matura em garapeira (ou grápia), madeira do Sul do Brasil que Marcos Vaccaro levou para a Chapada Diamantina e que é apontada como uma das melhores expressões dessa madeira no país. Já a Reserva Especial é uma extra premium envelhecida por oito anos em carvalho europeu, bem além do mínimo legal, e foi a mais bem pontuada das duas no Guia Mapa da Cachaça 2024.
Sim. No Guia Mapa da Cachaça a Serra das Almas Prata soma 90,5 pontos e o Selo 4 Estrelas, além de figurar entre as cinco melhores cachaças brancas sem madeira da edição 2025. Fora do Guia, ela foi eleita Melhor Cachaça Branca do Brasil pela Revista VIP em 2011, reconhecimento que ajudou a projetar o trabalho de Marcos Vaccaro na Chapada Diamantina.


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