Três estilos de cachaças que passam por barris de grápia

  • Publicado 1 ano atrás

Descubra como a grápia vem sendo usada pelos produtores de cachaça. Conheça rótulos como Serra das Almas, Mãe Santa e Santa Martha, que utilizam essa madeira para criar perfis sensoriais únicos e autenticamente brasileiros.

Grápia ou garapeira

A madeira de grápia (Apuleia leiocarpa), também chamada de garapa, garapeira ou grapia, é uma espécie originária da América do Sul, presente em países como Brasil, Paraguai e Argentina. Essa árvore imponente pode atingir alturas de 15 a 30 metros. Seu nome é inspirado na tonalidade das folhas após a floração, que adquirem uma coloração parecida com a da garapa.

Amplamente empregada em construção civil, móveis e tanoaria, a grápia é apreciada na confecção de barris para bebidas como vinhos e destilados. Quando usada no envelhecimento de bebidas alcoólicas, essa madeira confere características sensoriais distintas, incluindo notas amadeiradas, de baunilha e especiarias, e taninos que podem agregar amargor, especialmente em suas versões mais intensas.

No Brasil, vinícolas e alambiques vêm explorando o uso de madeiras nativas, como o jequitibá-rosa, a canela-sassafrás e a grápia, buscando uma identidade única para os produtos locais. Entre os pioneiros do uso da grápia na cachaça estão os alambiques do Rio Grande do Sul, cuja iniciativa vem inspirando produtores de outras regiões. Este movimento reflete uma valorização da biodiversidade brasileira e atende ao crescente interesse por alternativas ao carvalho, proporcionando uma experiência de degustação autêntica e brasileira.

A seguir, destaco três rótulos de cachaças que fazem uso da grápia, cada um com suas características próprias, exemplificando a versatilidade e o perfil sensorial oferecido por essa madeira nacional.

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3 cachaças que passam pela madeira da grápia. Foto: Bruno Videira

Serra das Almas Garapeira

safra/lote: 2025 – lote 54

R$ 96comprar na Amazon

Movido pela tradição baiana de produção de aguardente artesanal, o catarinense Marcos Vaccaro mudou-se para a cidade histórica de Rio de Contas, na Chapada Diamantina, onde se dedicou ao turismo rural, à agricultura orgânica e à produção de cachaça. Em 2000, lançou a cachaça Serra das Almas, que, em 2002, conquistou o selo como produto orgânico pelo Instituto Biodinâmico (IBD), tornando-se a primeira cachaça com essa certificação.

Observando a experiência de vinicultores no Sul do Brasil que utilizavam a grápia para armazenar vinhos, Vaccaro optou por adotar essa madeira para armazenar a sua versão Ouro da Serra das Almas. A cachaça ajudou a difundir a grápia pelo Brasil e, sua versão Abelha, desenvolvida em colaboração com o inglês Hal Stockler, se destacou no mercado europeu, introduzindo os sabores dessa madeira brasileira aos apreciadores estrangeiros.

Serra das Almas Garapeira

A Serra das Almas Garapeira, com 39% de álcool, passa por um armazenamento de quatro anos em barris de 250 litros de grápia (sinônimo de garapeira). A cachaça apresenta cor dourada e brilhante, com lágrimas moderadas, e possui aroma com notas de baunilha, caramelo, flores secas e pão. Ela tem corpo médio e revela uma sensação metálica na boca. No paladar, o doce inicial é sutil, trazendo um leve toque de baunilha e um mix de castanhas, equilibrado com um amargor medicinal que remete ao chá de boldo. O final é médio, com nuances doces, amargas e salgadas que permanecem no fim de boca.

Mãe Santa Grápia

R$ 130comprar com o produtor

A Mãe Santa Grápia é uma cachaça produzida pela premiada destilaria capixaba Princesa Isabel, da família Cellia. Com um teor alcoólico de 40%, essa cachaça passa por um processo de maturação de 12 meses em barris de grápia de 200 litros, sem tosta. A cachaça que avaliei, foi envelhecida em barris que estão em seu primeiro uso, proporcionando uma experiência sensorial mais intensa, que exalta as características mais tânicas da grápia.

cachaça princesa isabel mãe santa envelhecida em grápia

Sua coloração é um dourado brilhante, e ao girar na taça, forma lágrimas moderadas. No aroma, destacam-se notas de banana passa, cupuaçu, um toque vínico, pimenta-do-reino e castanha. É a cachaça mais amadeirada da seleção, trazendo mais especiarias do que as outras avaliadas. A sensação na boca é de um corpo médio, com frescor e textura envolvente, e o paladar revela sabores como licor de amêndoa, caramelo, folha de louro, vermute, além de nuances medicinais e um leve fundo de chá de boldo. O final é médio para longo, trazendo um frescor vegetal com picância e um amargor agradável de casca de laranja.

A Mãe Santa reflete o compromisso da destilaria com a autenticidade e a inovação dentro da produção artesanal de cachaça. A Princesa Isabel explora além das madeiras tradicionais como carvalho, jequitibá, amburana e bálsamo, outras mais inusitadas, como a jaqueira. Com o uso da grápia, a Princesa Isabel acrescenta novas dimensões ao seu portfólio, reforçando sua identidade e compromisso com os ingredientes brasileiros.

Santa Martha Grapia

R$ 78,90comprar com o produtor

safra/lote: 01/14 fabricação: 2013

A cachaça Santa Martha carrega uma história rica e uma conexão profunda com a cultura gaúcha e as tradições de envelhecimento em madeira brasileira. Evandro Weber, da Weber Haus, resgatou essa marca histórica, estabelecida em 12 de fevereiro de 1928 no município de Osório, Rio Grande do Sul. 

“A grápia era a madeira usada para fazer barcos e canoas na região litorânea para que as pessoas pudessem se transportar e fazer a travessia pelas lagoas de Osório, e assim como a canela-sassafrás, sempre foi uma madeira muito usada para fazer cachaça”.

Evandro Weber, produtor da cachaça Weber Haus e Santa Martha

No começo do século XX, a instalação da Usina Santa Martha foi um evento marcante, celebrado até pela presença de Getúlio Vargas, então presidente da província e futuro presidente do Brasil. A usina foi pioneira na produção de açúcar branco no estado, contando com equipamentos modernos importados da Alemanha, e também dedicou-se à fabricação de cachaça, registrando a Santa Martha como a primeira marca de cachaça gaúcha destinada ao mercado nacional.

Santa Martha Grápia

Para minha seleção, não poderia deixar de trazer a Santa Martha Grápia, agora parte do portfólio da Weber Haus. Ela destaca-se pelo envelhecimento em barris de grápia de 700 litros com tosta média por um ano. 

A Santa Martha é a cachaça mais frutada e doce das selecionadas para o artigo, com maior presença dos aromas primários da cachaça branca, com melado e caramelo. Das três cachaças avaliadas, é a que apresenta menor amadeirado, já evidente na análise visual, apresentando um dourado claro. No nariz, ainda traz frutas amarelas (abacaxi) e leve presença de tosta. Na boca, o corpo é de curto para moderado, se sobressaindo um frescor herbáceo da cana e um leve amargor agradável, típico da grápia. De alta bebabilidade e álcool ameno (38%).

Mesma madeira, diferentes propostas

As três cachaças, embora passem pela mesma madeira, oferecem experiências sensoriais distintas. A Mãe Santa revela todo o potencial da grápia, destacando-se como uma escolha para quem busca desafiar o paladar. É ideal para degustadores mais experientes que apreciam uma dose extra de taninos. Além disso, seu perfil amadeirado, com notas de especiarias e amargor, torna-a uma excelente opção para coquetéis, como o Rabo de Galo, onde a presença da madeira traz corpo e complexidade.

A Serra das Almas Garapeira traz um dulçor equilibrado e complexo, resultado de quatro anos de envelhecimento. Esse processo confere notas de baunilha e castanhas, criando uma doçura amadeirada que harmoniza com um leve amargor característico da grápia. Recomendo consumir pura para entender melhor a madeira.

A Santa Martha Grápia, da Weber Haus, é a opção ideal para iniciantes. Com teor alcoólico mais suave entre as três selecionadas, apresenta dulçor e frescor equilibrados, além de uma acidez leve. Essa combinação torna-a uma excelente escolha para quem começa a explorar os aromas e sabores das cachaças envelhecidas em madeira, sendo especialmente indicada para coquetéis frutados, como uma caipifruta de abacaxi.

Para a realização deste artigo, agradeço a Luisa Saliba, por disponibilizar o espaço Dirley Fernandes, sala especial para degustações de cachaça na Rota do Acarajé, um verdadeiro templo para os apreciadores de cachaça e cervejas especiais em São Paulo. Também agradeço ao Bruno Videira, especialista em cachaça do Viva Cachaça, que me acompanhou nas degustações, ajudando a decifrar os aromas e sabores dessas três cachaças armazenadas e envelhecidas em grápia.

bruno luisa felipe Três estilos de cachaças que passam por barris de grápia

Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.