Barris antigos ainda fazem cachaça boa, o exemplo da Alma de Gato Premium

  • Publicado 10 meses atrás

Entre a onda das cachaças amadeiradas em barris novos, a Alma de Gato Premium mostra que carvalho antigo ainda pode surpreender com elegância, complexidade e personalidade.

Ultimamente, tenho escrito muito sobre cachaças bastante amadeiradas, seguindo a tendência — que veio para ficar — de produtores que investem em barris novos ou de primeiro uso, com tostas que vão das mais sutis às mais intensas. É uma estética sensorial que tem seu valor e, não à toa, conquistou muitos apreciadores.

Mas hoje quero trazer um exemplo que escapa dessa lógica e prova que, sim, barris de carvalho já exauridos ainda podem produzir cachaças marcantes. Confesso: são casos mais raros, mas essas preciosidades existem e precisam ser exaltadas. A Alma de Gato Premium, produzida em Ourinhos (SP), é uma dessas exceções que merecem destaque. Inclusive, recebeu a medalha de Ouro no Concurso Estadual de Qualidade da Cachaça Paulista 2024, no qual participei como jurado, e ficou bem classificada no Guia Mapa da Cachaça 2025 (livro que publicaremos nas próximas semanas).

Do hobby ao alambique: a história da Alma de Gato

No Vale do Paranapanema, entre os vastos campos de cana-de-açúcar e os cantos do pássaro Piaya cayana — conhecido como alma-de-gato — está o Sítio Engenho Velho, onde Álvaro Barreto Peixoto e sua esposa Silvana transformaram um antigo passatempo em um verdadeiro projeto de vida.

A história da destilaria, batizada com o nome da ave que remete uma variedade de cana-de-açúcar, começa em 2007, quando Álvaro, engenheiro agrônomo formado pela ESALQ, comprou o sítio já com um alambique. O que era inicialmente um hobby se tornou uma obsessão cuidadosa. Álvaro mandava amostras para análise na própria ESALQ e colhia elogios entusiasmados dos amigos — suas cobaias de copo na mão. Em 2018, a cachaça passou a ser oficialmente comercializada e, em 2021, estava pronta para desbravar novos horizontes.

Hoje, a produção acontece integralmente no sítio, com uma média de 10 mil litros por safra. O canavial próprio ocupa 4,5 alqueires e é cultivado com práticas agrícolas modernas e sustentáveis: uso de drones na adubação foliar, colheita manual e sem queima, fermentação controlada com a levedura selecionadas, e destilação em alambique de cobre. O combustível para a destilação vem do próprio bagaço da cana, e a água do resfriamento circula em sistema fechado — um processo consciente, que alia sustentabilidade, tradição e tecnologia.

Avaliação da Alma de Gato Premium

Alma de Gato Premium garrafa Barris antigos ainda fazem cachaça boa, o exemplo da Alma de Gato Premium

Entre os rótulos da marca, a Alma de Gato Premium se destaca com personalidade própria. Bidestilada, ela repousa por 12 meses em barris de carvalho americano com mais de 20 anos — muitos deles já estavam no sítio antes mesmo de Álvaro iniciar a produção comercial.

Essa escolha por barris antigos vai muito além de uma curiosidade técnica: ela molda o caráter da cachaça. Com coloração ouro-claro e lágrimas moderadas, a bebida já se apresenta com elegância. No aroma, revela notas de caramelo, chocolate com cereja, frutas vermelhas como framboesa, coco, castanhas e um surpreendente toque de mofo branco, típico de queijos curados — resultado da longa convivência entre o carvalho, o tempo e o ambiente de envelhecimento.

No paladar, nada da potência agressiva do carvalho novo. Em vez disso, a Alma de Gato Premium entrega uma suavidade rica em nuances: baunilha, creme, coco, amêndoa e toffee. O corpo varia de leve a médio, com textura aveludada, e o final acompanha esse perfil mais sutil, porém cheio de presença.

Assim como o canto da alma-de-gato — um som raro que lembra o miado de um felino —, é incomum encontrar cachaças envelhecidas em carvalho exaurido que consigam manter tanta identidade. Mas essa de Ourinhos é uma exceção notável. Quando a madeira certa encontra o tempo certo no lugar certo, e uma proposta clara de envelhecimento prolongado, o resultado pode ser encantador: ésteres frutados mais presentes, notas lácteas suaves, percepção de acidez que traz mais características frutadas — tudo isso contribuindo para uma cachaça com alma e autenticidade.

pássaro Alma de gato

Um projeto de vida, feito com o tempo certo

A filosofia da Alma de Gato é clara: manter a produção pequena, focada na qualidade, sustentabilidade e identidade regional. Álvaro e Silvana não querem escalar o negócio, mas sim consolidar uma marca que represente o melhor do interior paulista.

Além da Premium, a marca oferece rótulos Prata, Ouro e uma versão em amburana. Este ano de 2025, acaba de ser lançada a cachaça Alma de Gato Extra-Premium, com 36 meses de envelhecimento em tonéis de carvalho e bi-destilada, que estará na próxima Agrishow 25. Quem quiser conhecer de perto o processo e a história pode visitar o Sítio Engenho Velho — mediante agendamento — e fazer um tour guiado com o próprio Álvaro. Uma verdadeira imersão no mundo da cachaça artesanal, com direito ao canto da alma-de-gato ao fundo.

Para quem está longe de Ourinhos, as cachaças podem ser compradas diretamente pelo site ou via WhatsApp da marca, com entrega para todo o Brasil. E assim, com simplicidade, conhecimento técnico e uma boa dose de paixão, a Alma de Gato mostra que barris antigos ainda têm muita história para contar — e cachaça boa para oferecer.

Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.