Ourinhos, no estado de São Paulo, é cidade natal da cachaça artesanal Alma de Gato, nome que homenageia o pássaro de mesmo nome (Piaya cayana é o nome científico), que, com sua calda comprida, tem presença marcante e abundante no Sítio Engenho Velho, onde a cachaça é produzida.
A destilaria foi fundada por Álvaro Barreto Peixoto, engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP), que é o seu responsável técnico e também responde pelos blends.

Peixoto é natural de Piracicaba (SP), porém, como profissional do setor sucroenergético (no qual atua desde 1985), mudou-se para Ourinhos, cuja região, no vale do Paranapanema, é uma das mais importantes do país neste setor e, portanto, conta com extensas e importantes plantações de cana-de-açúcar.
Embora a Alma de Gato tenha sido fundada em 2018, a relação entre Peixoto e a produção de cachaça começou a ser moldada em 2007, quando adquiriu o Sítio Engenho Velho, onde existia um antigo alambique. O engenheiro resolveu aproveitar a estrutura e passou a “brincar” de produzir cachaça como um hobby, porém já vislumbrando a possibilidade de tornar a atividade um negócio no futuro.
No decorrer dos anos, Peixoto foi fazendo as mudanças necessárias no alambique, de forma a atender as legislações vigentes e melhorar o produto e seu processo. Mesmo que ainda não fosse de forma comercial, enviava as amostras para análise na ESALQ, obtendo ótimos resultados, que se somavam aos elogios daqueles que experimentavam a cachaça.
“Foi devagar e, como trabalhava em outra área, não tinha muito tempo. Mas fomos aprendendo, usando os amigos como cobaias”, conta Peixoto, se divertindo. “Mas sempre com o pensamento de, futuramente, viabilizar a produção e seguir com o negócio,” completa
Em 2022, a Alma de Gato começou a ser comercializada e, atualmente, conta com quatro produtos: a cachaça Prata, a Ouro, envelhecida em tonéis de carvalho, e a Premium, que tem duas versões: uma envelhecida em toneis de carvalho, e outra em amburana.

A cachaça Alma de Gato é feita em pequena escala, com uma produção anual em torno de 10 mil litros por safra. Desta forma, todo o trabalho na destilaria é feito basicamente por Peixoto, sua esposa Silvana e mais um profissional que os auxilia nas atividades. No entanto, mais pessoas são contratadas sazonalmente, na época de safra, para auxiliar na produção. Segundo Peixoto, a ideia é manter essa margem de produção, preservando um produto artesanal e de alta qualidade.
“Não queremos crescer muito em questão de volume, nosso foco é na qualidade e não na quantidade”,
explica Álvaro
Todo o processo de produção é realizado no Sítio Engenho Velho, desde o plantio do canavial até o envase, com exceção das análises, uma vez que a cana é analisada nas usinas da região e as cachaças na ESALQ. A plantação tem um cuidado especial, a nutrição e o manejo das plantas daninhas feitos no momento adequado, o controle de pragas e doenças com foco em produtos biológicos sempre que possível e a adubação foliar com auxílio de drones. “Usamos a tecnologia para aumentar a produtividade”, explica o produtor.
O corte da cana é feito manualmente, assim como a despalha, e sem processo de queima. Após a moagem, o processo de fermentação é feito por batelada com uso do fermento próprio para a produção de cachaça, sem adição de substratos. As dornas de fermentação, em aço inox são abertas e a destilação é realizada em alambique de cobre, aquecido por caldeira alimentada com o próprio bagaço da cana, que é reaproveitado.
O Sítio Engenho Velho preza por um método de produção sustentável. A água para resfriamento da cachaça flui através de um circuito fechado passando por uma torre de resfriamento, enquanto a vinhaça (subproduto da destilação), muito rica em matéria orgânica e potássio, juntamente com as águas de lavagem de piso, retornam à lavoura por meio de carreta-tanque, ao passo que as cinzas da caldeira são utilizadas em canteiros para produção de hortaliças. A Área de Proteção Permanente (APP) do sítio é mantida a uma distância adequada das lavouras e todos os produtos recicláveis usados no Sítio são destinados à Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis de Ourinhos.



A cachaça usada para Alma de Gato Prata é reservada em tanques de inox por cerca de seis meses, enquanto o restante é destinado para os tonéis de carvalho americano e amburana. Para a Ouro é feito um blend composto por cachaça envelhecida por um ano (em carvalho) e por outra cachaça com menos tempo de envelhecimento. Já as duas linhas da cachaça Premium são bidestiladas e passam pelo processo de envelhecimento de 12 meses em carvalho ou amburana.
Em breve será lançado um novo produto, a Alma de Gato Extra Premium, também bidestilada e com 36 meses de envelhecimento em carvalho, que já está em vésperas de chegar ao consumidor.
As cachaças Alma de Gato podem ser encontradas em empórios em diversas cidades do estado, como Piracicaba, Bauru, Araçatuba, Assis, Marília, Presidente Prudente e São Paulo, além de outras localidades. Mas também é possível fazer compra direto pelo site do Sítio, e os envios são feitos para todo o Brasil.
“Nós despachamos a cachaça para vários lugares. Fazemos venda direta pelo WhatsApp e já mandamos para vários estados do Brasil”, ressalta Peixoto.



Para quem quiser ter uma experiência mais aprofundada e, de quebra, ouvir in loco o canto do Alma de Gato, é possível conhecer o Sítio e o processo de produção por meio de visitas agendadas, que são acompanhadas pelo próprio Álvaro Peixoto, que conta toda a história da destilaria e mostra como é realizado o processo de fabricação das cachaças, explica as diferenças entre os blends, as particularidades de cada sabor, e tudo com direito a degustação.
Peixoto explica que o Sítio está passando por adequações para aprimorar o atendimento ao público. Neste sentido, está trabalhando junto ao Sebrae no programa Ali Rural a fim de fortalecer a presença do Sítio Engenho Velho na rota do turismo na região.
Além do site, é possível entrar em contato com o Sítio Engenho Velho por meio do e-mail [email protected], do perfil no Instagram @sitioengenhovelho, e do telefone (14) 99612-2021.
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André Gobi, historiador e jornalista científico, escreve sobre as principais destilarias de cachaça no Brasil para o Mapa da Cachaça, explorando cultura e tradição