A Fina Flor é um pequeno e tradicional produtor de cachaças de alambique do Circuito das Águas Paulista, uma das regiões mais atraentes do interior de São Paulo, não apenas para turistas da cachaça, mas para todos os viajantes.
Você percebe isso imediatamente quando entra na região, que é formada por nove cidades, localizada há pouco mais de 100 quilômetros da capital do estado. A paisagem muda. As estradas ficam sinuosas, a vegetação se espalha por montes verdes e a charmosa arquitetura com diversos imóveis tombados em estilo Neo clássico, Gótico e de Art Nouveau te fazem desacelerar para apreciar.
Além das belezas culturais e naturais e da reconhecida gastronomia, estima-se que a região possua mais de uma centena de alambiques em funcionamento, mas apenas uma pequena parte é registrada no Ministério da Agricultura e Pecuária.

A cachaçaria familiar produtora das marcas Fina Flor e Nonno Ítalo fica localizada na área rural de Amparo, no limite com a cidade de Monte Alegre do Sul, dois charmosos e tranquilos municípios da região de rica influência italiana.
A história do alambique da cachaça Fina Flor começa em 1935, quando Ítalo Daolio, um italiano que chegou ao Brasil com apenas seis anos, iniciou a produção de aguardente na antiga propriedade da família, no Bairro da Moenda, em Monte Alegre do Sul.

“A família Daolio é muito tradicional na produção de cachaças na região, sendo uma das mais antigas. Meu bisavô foi quem deu início ao alambique, mas após alguns problemas de saúde teve que parar. Mais tarde, na década de 1970, meu pai, Claudio Daolio, retomou o trabalho e seguiu aprimorando a técnica”,
João Paulo Daolio, produtor da cachaça Fina Flor
Em 2006, a família oficializou a marca Fina Flor e, mais recentemente, em 2020, ampliou o portfólio com a cachaça Nonno Ítalo. A ideia de criar uma nova linha surgiu para homenagear aquele que fundou a tradição da família.
Hoje, as duas marcas são destaque na produção local do alambique paulista, com três versões principais: prata, descansada em tonel de amendoim do campo; carvalho, descansada em barris da madeira; e cerejeira, uma opção que chama atenção por seu processo de maturação com lascas da madeira.

A madeira de cerejeira, outro nome popular da amburana, foi uma aposta do alambique Fina Flor. Em vez de utilizar tonéis, João emprega chips de cerejeira, uma técnica que aprendeu com pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq).
Desde 2022, a legislação brasileira tornou possível a prática de armazenamento de cachaça em contato com fragmentos de madeira, com o objetivo de agregar características sensoriais ao destilado.
Esses pequenos pedaços de madeira de cerejeira são adicionados na bebida após a destilação, durante seu acondicionamento, conferindo coloração amarela mais clara e sabor menos amadeirado do que o tradicional carvalho.
“A cerejeira traz uma cor amarelo claro, um dulçor característico e tem sido bem aceita pelos consumidores, embora a madeira esteja cada vez mais difícil de se encontrar”,
explica João.
O processo de produção no alambique segue a fermentação caipira. Claudio Daolio é o mestre alambiqueiro, enquanto o filho João cuida da parte administrativa e comercial. A família cultiva seu próprio canavial, utilizando o sistema de rebrota por até cinco anos antes do replantio.
Para a fermentação, emprega fubá de milho na preparação do pé de cuba e leveduras selvagens, aquelas presentes no canavial e no local da produção, mantendo a tradição passada por gerações.



“Estamos testando outros tipos de levedura, mas nosso pé de cuba ainda segue o método tradicional iniciado pelo meu bisavô”,
afirma João.
O alambique, com capacidade de 300 litros, é feito de cobre e mantém o design clássico de um aparelho com meio século de uso. A cachaça destilada é armazenada por 15 dias em um tonel de 5 mil litros de amendoim do campo com mais de 50 anos antes de ser engarrafa (no caso das cachaças prata).




Inserido em uma região rica em história e cultura, o Circuito das Águas Paulista vem ganhando cada vez mais destaque como polo de cachaças de alambique. Resultado da criação da Associação de Produtores de Cachaça de Alambique do Circuito das Águas (APCCAP).
A APCCAP, da qual os produtores da Fina Flor fazem parte, tem movimentado iniciativas como o Festival da Cachaça regional e a busca pelo selo de Indicação Geográfica (IG), valorizando a qualidade e a autenticidade das bebidas produzidas no circuito.
João acredita que essas ações fortalecem a identidade do alambique e da região. “Estamos na fase final para obter a delimitação geográfica, o que vai agregar ainda mais valor à nossa cachaça”, comenta Daolio.
Parte dos frutos dessa profissionalização dos produtores já foi colhida pela Fina Flor, que recebeu medalha de ouro no 1º Concurso Estadual de Qualidade da Cachaça Paulista, realizado em 2024.
“Continuar o trabalho iniciado pelo meu bisavô é muito gratificante. Foi difícil no começo, mas seguimos firmes e acreditamos no potencial da nossa cachaça”,
conclui João Daolio
Com visitações guiadas ao alambique, a família Daolio também abre as portas para o turismo, proporcionando uma experiência que vai do canavial ao armazenamento da bebida. João destaca que o contato direto com os visitantes e apreciadores é uma forma de manter viva a história do bisavô e transmitir os valores que sustentam a produção artesanal no alambique.
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Ana Paula Palazi é jornalista pela PUC-Campinas, mestra em Divulgação Científica e Cultural e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp. Atuou por dez anos como produtora e repórter de telejornal. Foi repórter de rede em emissora afiliada da Record TV, de 2016 a 2020. É produtora de conteúdo, atuando em trabalhos sobre cachaça, inovação e empreendedorismo.
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