A Flor das Gerais acaba de anunciar seu mais novo lançamento: Reserva Porto D’Ouro 10 Anos, uma cachaça que carrega uma história de paciência, experimentação e sensibilidade sensorial. Apenas 2.500 garrafas serão produzidas — e, segundo os produtores, uma nova edição só deverá estar pronta daqui a uma década.
A base da Porto D’Ouro começou a ser moldada em 2014, quando Daniel Duarte, à frente da produção da Flor das Gerais ao lado do seu pai Adão, encheu um barril de 2.000 litros de carvalho europeu reformado. O barril, adquirido um ano antes, chamou atenção por suas aduelas espessas — e por sua origem: havia sido utilizado anteriormente pela tradicional casa de tequila José Cuervo. Após passar por leve tosta, o barril permaneceu por sete anos maturando a cachaça orgânica produzida na Fazenda Mourões da Porteira.
Em 2022, a família adquiriu três barris da toneleria francesa François Frères, que haviam sido usados por apenas uma safra na maturação de vinho do Porto, no Douro, Portugal. Parte da cachaça do barril da José Cuervo foi então transferida para esses barris de vinho do Porto, onde descansou por mais três anos, completando os 10 anos de envelhecimento sequencial.

A Flor das Gerais tem um jeito muito próprio — e familiar — de criar seus blends: ao redor da mesa, entre risadas, memórias e opiniões sinceras. Na noite de Natal de 2024, esse ritual se repetiu. Foi quando os primeiros testes sensoriais da Porto D’Ouro aconteceram, como de costume, com a participação de todos: quem bebe, quem não bebe, quem observa e quem anota. Cada palpite ajuda a afinar o perfil da cachaça, num processo coletivo que mistura afeto e exigência.
Recentemente, tive o privilégio de me juntar ao time de avaliadores, antes mesmo do lançamento oficial. Fui convidado pelos produtores para registrar minhas impressões — assim como outros especialistas que também contribuíram com seus comentários. A seguir, compartilho minhas considerações sobre essa nova cachaça de 10 anos da Flor das Gerais:

A Flor das Gerais Reserva Porto D’Ouro apresenta uma bela coloração dourado-escuro, com reflexos acobreados e lágrimas lentas na taça.
No nariz, surgem aromas de doce de banana, bala de caramelo e daquelas balas de café de embalagem preta, seguidos por notas terrosas, além de toques sutis de baunilha e pão de mel. Uma agradável presença de baunilha, chá preto e tabaco se destacam no fundo da taça já vazia, após o último gole.
No paladar, a cachaça revela uma transformação interessante. A doçura acolhedora percebida no aroma dá lugar a uma sensação levemente metálica na língua, com um amargor discreto vindo dos taninos da madeira. Em uma segunda camada, reaparecem a baunilha e o caramelo, agora acompanhados por notas de uva-passa que conferem profundidade ao conjunto.
O retrogosto é de intensidade moderada e picância baixa. Ao final, o amargor sutil da madeira se mistura com a doçura da uva-passa, provável resquício do vinho do Porto, conferindo à cachaça uma assinatura sensorial bastante particular e agradável.
Com apenas 2.500 garrafas numeradas, a Porto D’Ouro 10 Anos é uma cachaça feita para ser apreciada com calma — e com a consciência de que não voltará tão cedo. A próxima edição está prevista apenas para 2035, o que reforça seu caráter exclusivo e o compromisso da Flor das Gerais com projetos de longo prazo.
Essa nova reserva traduz bem a filosofia da marca: trabalhar com paciência, respeitando o tempo da madeira, sem abrir mão da identidade e do propósito. Ao mesmo tempo, revela a inquietação criativa e o domínio técnico que vêm marcando essa nova geração de produtores de cachaça.

A aposta em lançamentos diferenciados tem dado frutos. Na última semana, a Flor das Gerais Dorna Única, envelhecida exclusivamente em amburana nova, conquistou a medalha de ouro em um concurso internacional. O lote está esgotado, e a próxima edição está prevista para o ano que vem. A Porto D’Ouro segue a mesma lógica: um lote limitado, com envelhecimento prolongado e identidade própria. Para nós, que acompanhamos de perto o mercado da cachaça de alambique, é animador ver um número crescente de rótulos que apostam em projetos autorais, com valor agregado, maturação longa e produção consciente. Parece cada vez mais claro que esse é o caminho para que a cachaça de alambique conquiste seu mercado e gere marcas cada vez mais fortes.
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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
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