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Destilaria Octaviano Della Colletta, a casa das cachaças Alzira e Ĉ

Fundada por Célia e Gustavo Mattos, a Octaviano Della Colletta une expertise da alta gastronomia à produção artesanal de Cachaça na Fazenda Basalto, em Torrinha (SP)
fachada destilaria octaviano della coletta

Fundada por Célia e Gustavo Mattos, a Octaviano Della Colletta une expertise da alta gastronomia à produção artesanal de Cachaça na Fazenda Basalto, em Torrinha (SP)

Se engana quem pensa que nas altas cozinhas francesas só se pensa em Champagne. Célia Miranda Mattos e Gustavo Della Colletta Mattos, um casal com vasta experiência na alta gastronomia, com passagem por alguns dos principais restaurantes franceses e formação na Le Cordon Bleu de Paris (mais importante escola de culinária francesa e uma das mais respeitadas do mundo), tem mostrado que a Cachaça é cada vez mais uma bebida internacional – e um dos maiores símbolos nacionais do Brasil.

O casal fundou, em 2017, a destilaria Octaviano Della Colletta, que fica na Fazenda Basalto, no município de Torrinha, interior de São Paulo e a cerca de 200 quilômetros de distância da capital do Estado. A localização da fazenda é privilegiada, uma vez que a região é conhecida pela terra roxa em virtude da cor do solo que, por ter origem no basalto, é muito rico em minerais como ferro e magnésio, tornando o local altamente fértil e propício ao plantio da cana-de-açúcar.

Concebida em Paris, nascida em Torrinha

Pode se dizer que a história da destilaria começa em Paris, quando o casal, já proprietário do elogiadíssimo Chez Nous Chez Vous, no coração da capital francesa, decidiu empreender em alguma outra área ligada à gastronomia.

Em meio a algumas ideias, o primo Gabriel Della Colletta sugeriu a produção de Cachaça. Como já eram consumidores da bebida, a ideia de fundar uma destilaria ganhou força, até mesmo como uma forma de homenagear o avô de Gustavo, o “Seu” Octaviano Della Colletta, um apaixonado pelo destilado e famoso pela “Cachaça do Lão”. Daí veio o nome da destilaria.

Seu Octaviano não era um produtor, mas ele comprava a Cachaça de produtores locais e a envelhecia, num processo que se tornou uma tradição familiar e acabou fazendo da bebida uma iguaria reconhecida em toda a região de Torrinha.

O primeiro passo para dar vida à destilaria Octaviano Della Colletta foi, justamente, aprender sobre Cachaça e seu processo de fabricação. Para isso, o casal mergulhou em cursos, estudos, visitas a destilarias diversas de vários países e, claro, muitos testes. 

Em seguida, começaram a desenvolver um canavial próprio que gerasse uma cana-de-açúcar de qualidade para a produção da Cachaça. Célia credita a qualidade do canavial da Fazendo Basalto aos esforços de todas as pessoas envolvidas e ao cuidado com a terra, destacando a escolha da cana a ser cultivada.

destilaria octaviano della colleta
Na foto vemos o canavial, a terra roxa e a destilaria Octaviano Della Colletta

Começamos o plantio da cana, que foi escolhida a dedo. Falamos com outros produtores da região, visitamos centros de estudo e pesquisa de cana e começamos nosso canavial do zero, tratando o solo com muito respeito e carinho para chegar na cana que temos hoje, que é excelente

Célia Miranda Mattos

Paixão pelo produto e pelo processo 

O corte da cana é feito manualmente, já sendo limpa ainda no campo, onde a palha depois é recolhida para ser usada na geração de energia para a caldeira. Já na destilaria, a cana é lavada e passa por uma moenda de dois ternos, um conjunto de dois engenhos interligados, permitindo um aumento de moagem e de extração. 

moagem da cana
O canavial de 9 hectares, manejado organicamente, fica a poucos metros da destilaria e utiliza as variedades de cana RB-867515, SP 32-3280 e IAC-974039.

Um dos segredos da produção, segundo Célia, é a dedicação da equipe em todo o processo produtivo, desde o plantio até o engarrafamento. 

“Você já viu alguém falar com a cana? Pois, o João (Souza, responsável pelo cultivo da cana) conversa com o canavial. Então, a qualidade do produto vem desde essa energia que é colocada e com todas essas pessoas maravilhosas, com tanto conhecimento e amor. As pessoas que trabalham na destilaria dão o máximo”, enaltece.

Com uso da levedura CA-11, a fermentação é feita em seis dornas com tampas com temperatura controlada por 24 horas, que é vistoriada por Júlia Valencise, também responsável pelo laboratório próprio da destilaria. A destilação é feita em dois tipos de alambiques, de dois corpos ou três corpos, a depender da Cachaça.

fermentação destilaria octaviano della colleta
As dornas de fermentação e as panelas de destilação ao fundo

Embora inspirada pela tradição e solidificada na paixão pelo ofício, Célia destaca também a importância da tecnologia no processo produtivo, com um método de preparo que foi sendo aperfeiçoado com auxílio de especialistas, equipamentos modernos que foram importados e o conhecimento científico aplicado em toda a cadeia. 

Como a destilaria foi iniciada do zero, e todo o projeto foi elaborado por arquitetos com a ajuda do casal, pensado de forma moderna e, ao mesmo tempo, funcional.

Eau de vie de canne

Na Octaviano Della Colletta, são produzidas duas linhas de Cachaça, a Alzira e a Ĉ. A Alzira leva nome em homenagem à longeva esposa de Seu Octaviano, uma mulher de força que viveu até os 102 anos e, segundo Célia, era muito à frente do seu tempo, devido a um comportamento fora dos padrões da época.

dona alzira Destilaria Octaviano Della Colletta, a casa das cachaças Alzira e Ĉ
D. Alzira e a Cachaça criada em sua homenagem
lao e alzira Destilaria Octaviano Della Colletta, a casa das cachaças Alzira e Ĉ
Alzira e Octaviano Della Colletta, casal que inspirou a produção da Cachaça

“Imagine uma mulher nascida em 1921, em Torrinha, e aos vinte e poucos anos que era amiga de homossexuais, que os recebia em sua casa, que dançava Tango, dirigia, tricotava, era cabeleireira, costureira. E Alzira foi uma mulher com muita força, pois quando o Seu Octaviano faliu, foi ela quem sustentou a casa com todos esses seus saberes. Precisávamos homenageá-la”, conta Célia.

A Alzira Amburana, é destilada em alambique simples, que produz uma Cachaça rica em congêneres, com sabores intensos de cana, doçura e acidez moderada. Após a destilação, ela é armazenada em tonéis de jequitibá rosa e em barris de amburana, para, então, ser armazenada em tanques menores de jequitibá rosa a fim de equilibrar o perfil obtido pela mistura das madeiras. Recentemente também foi lançada a Alzira Cristal, uma Cachaça branca, que após a destilação passa pelo armazenamento em dornas de inox por pelo menos 6 meses.

A linha Ĉ são todas destiladas no alambique de três corpos, mais eficiente e com maior rendimento, é usado para gerar uma Cachaça com menor teor de congêneres, porém com maior concentração de dulçor e menos acidez.

A Ĉ Blanc de Blancs é uma Cachaça branca que passa seis meses armazenada em inox, ideal para drinks refrescantes e que para harmonizar com queijos, peixes e carnes brancas. A Ĉ Double Wood, um blend de jequitibá rosa e carvalho americano, indicada para harmonizar com carnes vermelhas grelhadas e defumadas. A Ĉ Triple Wood, resultante de um blend de castanheira (uma árvore brasileira), carvalho francês e carvalho americano, que harmoniza com carnes vermelhas encorpadas.  

As Cachaças da linha Ĉ são pensadas para a alta gastronomia, para acompanhar pratos elaborados e para drinks sofisticados. “Eau de vie de canne”, brinca Célia justificando que queriam uma Cachaça de alta qualidade, com sabor e visual diferenciados.

“Queríamos que as pessoas tomassem nossa Cachaça e ficassem impressionadas. Que pudessem sentir o açúcar, sentir o sabor da cana. Testamos também várias receitas de drinks e harmonizações, que ficam ótimas”.

Célia Miranda Mattos

Para chegar aos blends ideais, os fundadores contaram com a ajuda da cientista Aline Bortoletto, pós-doutora pela ESALQ (Escola Superior de Agricultura da USP) e especializada na produção de bebidas alcoólicas pela Université de Bourgogne e AGROSUP Dijon, ambas na França. Foi uma parceria que perfeita, que proporcionou aliar as sensações da gastronomia com a ciência por trás dos processos. 

Atualmente, os blends são responsabilidade de Pedro Della Colleta, primo de Gustavo e Célia. Pedro, conta Célia, foi uma indicação em um momento em que a destilaria necessitava de um profissional para assumir o trabalho com os blends e fazer a destilação, se adequando perfeitamente à Octaviano Della Colletta. “É uma pessoa de extremo profissionalismo, feeling e técnica apurada para blends”, exalta a prima.

A destilaria conta no momento com oito funcionários e são produzidos cerca de 39 mil litros anualmente, com capacidade para atingir 60 mil.

Cuidados especiais vão do plantio à embalagem

Um destaque que não passa despercebido nas Cachaças produzidas pela Octaviano Della Colletta é a apresentação dos produtos. As duas linhas, Alzira e Cê, possuem um trabalho cuidadoso com a identidade visual, que vai desde a elaboração dos rótulos até as caixas, que já indicam um rigor estético à altura do destilado.

“Não adianta nada eu ter um produto ótimo, se a embalagem não condizer com ele”,

afirma Célia.

Pensando nesse aspecto do diferencial, a destilaria disponibiliza a linha Alzira com três rótulos diferentes, um atrativo especial para colecionadores. Para além das garrafas, os produtores estão criando souveniers atrelado às marcas, para mostrar que a Cachaça faz parte de um estilo de vida que pode ser

Como visitar a casa de Alzira e Ĉ

Atualmente é possível encontrar a Cachaça Alzira em grandes revendedores, como Carrefour, Eataly, La Pastina e World Wine.

Mas quem estiver pela região de Torrinha pode passar pela Fazenda Basalto e visitar a loja da destilaria, a Casa de Alzira, onde é possível comprar as Cachaças e também diversos outros produtos.

No momento, as visitações à destilaria ainda não estão abertas, mas em breve será possível fazer visitas guiadas. Estima-se que ainda em 2025 essa opção de passeio estará disponível, proporcionando uma experiência com degustações e outros atrativos, como uma grande diversidade de produtos temáticos relativos às duas linhas, com destaque para Alzira. 

Perguntas frequentes

Descubra mais

Quais cachaças da Octaviano Della Colletta têm selo do Guia Mapa da Cachaça?

No Guia Mapa da Cachaça 2024, quatro rótulos da casa receberam o Selo 4 Estrelas. A maior nota ficou com a Ĉ Triple Wood, blend de castanheira e carvalhos que somou 92 pontos. Logo atrás, com 90,5 pontos cada, vieram a Alzira, a Ĉ Blanc de Blancs e a Ĉ Double Wood.

Por onde começar a provar as cachaças Alzira e Ĉ?

Para sentir o destilado antes da madeira, comece pelas brancas descansadas só em inox: a Alzira Cristal e a Ĉ Blanc de Blancs. Para conhecer o trabalho com madeira que define a casa, o passo seguinte são a Alzira, que passa por amburana e jequitibá-rosa, e a Ĉ Triple Wood, a mais bem avaliada da destilaria no Guia.

A Octaviano Della Colletta lançou alguma cachaça depois desta reportagem?

Sim. A linha Ĉ ganhou a Ĉ Ipê Roxo, uma edição premium envelhecida por cinco anos em single barrel de ipê roxo, madeira brasileira pouco usada em destilados. Foram apenas 240 garrafas numeradas, um item voltado a colecionadores. O lançamento reforça a pegada autoral da casa com madeiras nacionais.

Qual a diferença entre a Alzira e a Alzira Cristal?

A Alzira é destilada em alambique simples e passa por duas madeiras sem tosta — primeiro barris de amburana e depois grandes tonéis de jequitibá-rosa —, o que a coloca entre as cachaças armazenadas em blend. Já a Alzira Cristal é a versão branca da linha: descansa pelo menos seis meses em dornas de inox, sem contato com madeira, preservando a cor cristalina e o frescor da cana.

Produtor deste artigo

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Octaviano Della Colletta

Destilaria Octaviano Della Colletta, Torrinha – SP
Quem assina

O autor

André Gobi
Autor · Comunidade Mapa da Cachaça
André Gobi, historiador e jornalista científico, escreve sobre as principais destilarias de cachaça no Brasil para o Mapa da Cachaça, explorando cultura e tradição
Da mesma marca

Cachaças Alzira

Ĉ Blanc de Blancs
R$ 240
Ĉ Ipê Roxo
R$ 498
Alzira Cristal
R$ 109
Ĉ Triple Wood
R$ 370
Ĉ Double Wood
Alzira
R$ 118
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