Toca da Coruja: o ousado nascimento do alambique em Capão Bonito

  • Publicado 1 ano atrás

O alambique em Capão Bonito, em São Paulo, situado na serra entre o Alto Paranapanema e o Vale do Ribeira, enfrenta o clima frio e úmido da região, mas a Toca da Coruja, que batizou suas cachaças em tributo à fauna local, transforma essas adversidades em um elemento marcante de sua identidade.

Há 30 minutos de carro do centro da cidade de São Miguel Arcanjo, no sudoeste do estado de São Paulo, está a Toca da Coruja, uma cachaçaria familiar que transforma paixão e desafios em excelência. Rodeada despretensiosamente por um cinturão verde, há 800 metros de altitude, dentro da extensão do município de Capão Bonito, esse alambique é uma prova do sonho de um pai e da determinação de um filho.

Envolvida pela biodiversidade de grande relevância ecológica e beleza da Mata Atlântica, próxima de uma das unidades de conservação mais preservadas do estado, o Parque Estadual Carlos Botelho, a região oferece um clima único de serra, com temperaturas amenas e umidade constante, que influencia diretamente no cultivo da cana-de-açúcar utilizada na produção da cachaça.

A Cachaça Toca da Coruja e o sonho de um comerciante

A história do alambique começou em 1988, quando Jurandir Peraro Mochiutti adquiriu o sítio em que a cachaçaria Toca da Coruja foi instalada. O local, anteriormente utilizado para o plantio de batatas, não tinha infraestrutura ou energia elétrica.

Aos poucos, o comerciante foi investindo na propriedade. O primeiro alambique foi adquirido em 2005, mas permaneceu parado até que, em 2007, começou a construção da fábrica, concluída em 2009 com a primeira alambicada.

No entanto, o empreendimento só pode ser registrado no final de 2023, após ficar provado que o cultivo de cana na área, próxima de um Patrimônio Mundial Natural, não tinha intenções predatórias. “Nosso próximo passo é buscar o selo de certificação orgânica”, comenta Thiago Mochiutti, filho de Jurandir, que acompanhou todo o processo de registro e atua na produção em família.

Processo de fermentação da cachaça na serra

O alambique Toca da Coruja fica em uma área de 48 alqueires, divididos em dois sítios onde são produzidos cachaça e gado de corte. “Mais da metade dessa área, cerca trinta alqueires, é de mata preservada”. Devido às especificidades da região que tem alta pluviosidade e o clima frio da serra, Thiago conta que acertar a fermentação foi um processo empírico.

Inicialmente, os produtores aprenderam a fermentação com fubá de milho, seguindo o modelo clássico de Minas Gerais. Posteriormente, testes com leveduras selecionadas não atenderam às expectativas, levando à adoção de um método mais simples, inspirado na produção de cachaças da Paraíba, e que mais agradou o paladar dos produtores: uma fermentação baseada apenas no caldo da cana plantada e processada na propriedade.

“Optamos, nesses anos todos, desde 2009 até agora, por observar como que a gente ia fazer a fermentação. Queríamos criar uma identidade sensorial que se alinhasse com o local em que estamos. Hoje, um dos nossos diferenciais é tentar trazer um produto único com fermentação selvagem”,

diz Thiago Mochiutti

Equilíbrio e pureza do caldo de cana no alambique em Capão Bonito

A filosofia dos Mochiutti foi, desde o início, permitir que o território e suas adversidades fizessem parte da cachaça. A destilação é feita em alambique de cobre com fogo direto, enquanto o fluxo de produção é organizado por gravidade, reduzindo a necessidade de bombas mecânicas.

Outro diferencial da produção na Toca da Coruja, como já comentado, está no clima chuvoso e frio da região, que impacta diretamente as características da cana-de-açúcar cultivada na propriedade.

Essas condições, explica Thiago, resultam em canas com baixo teor de brix – medida de densidade que indica a quantidade de açúcar presente -, reduzindo a necessidade de adição de água no processo de padronização do caldo para a fermentação.

Embora isso limite o volume final de produção por metro quadrado de cana plantada, confere um perfil mais puro e equilibrado ao caldo para a fermentação selvagem: “A cachaça vem mais da cana do que da diluição do caldo em água”, afirma o produtor.

Principais cachaças para degustar da Toca da Coruja

Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo dos anos, a cachaça Toca da Coruja conquistou reconhecimento em concursos nacionais e internacionais. Em seu primeiro ano, obteve prêmios importantes, como medalhas de ouro e prata em competições como a Expocachaça e o Concurso Mundial de Bruxelas, além do 1º Concurso Estadual de Qualidade da Cachaça Paulista.

“Para nós, é extremamente gratificante perceber que nossa cachaça está enquadrada em um nível reconhecido por sommeliers de três importantes concursos, com pontuações consistentes entre 80 e 90 pontos. Mais do que as medalhas, isso representa uma excelência mostrando a qualidade que buscamos entregar”, celebra Thiago.

A linha de produtos da Toca da Coruja inclui opções descansadas em inox e em quatro tipos de madeira, sendo três brasileiras e uma importada: jequitibá-rosa, bálsamo, amburana e carvalho americano. Thiago explica que as escolhas são guiadas pelo sensorial desejado, sem distinção entre barris de primeiro ou segundo uso.

A marca tem investido ainda em uma linha extra premium, que insere blends de madeiras e envelhecimentos mais longos ao portfólio. A  Toca da Coruja Green foi a primeira desse projeto a ser lançada, em 2024, sendo envelhecida por 3 anos no carvalho americano.

Na sequência virá a edição Blue, um blend de carvalho e amburana com seis anos de armazenamento, que foi desenvolvido em parceria com o master blender Armando Del Bianco e uma futura cachaça chamada Black, prevista para 2027 e combinará carvalho, amburana e bálsamo, com oito anos de maturação.

“Estamos resgatando parte da nossa história, que começou lá em 2009 com um curso de produção de cachaça ministrado pelo Armando na propriedade”, lembra o produtor.

Identidade da cachaça Toca da Coruja

Não é preciso muito para perceber que a afetividade é uma marca dessa cachaça paulista de Capão Bonito. O próprio nome “Toca da Coruja” tem origens que misturam o sentimento e a identidade local. Ele foi inspirado tanto na paixão da mãe de Thiago por corujas – uma homenagem à matriarca da família – quanto na presença marcante desses animais na propriedade: as corujas buraqueiras.

 “Quando pensamos na ‘toca da coruja’, queremos mais do que transmitir o sentimento familiar, mostrar que nossa cachaça é feita em um local especial e único”. A ideia é trazer o turismo local para perto, agregando a beleza da mata e da reserva a uma produção sustentável de cachaça.

Thiago Mochiutti

Ana Paula Palazi é jornalista pela PUC-Campinas, mestra em Divulgação Científica e Cultural e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp. Atuou por dez anos como produtora e repórter de telejornal. Foi repórter de rede em emissora afiliada da Record TV, de 2016 a 2020. É produtora de conteúdo, atuando em trabalhos sobre cachaça, inovação e empreendedorismo.

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