Eu sempre apreciei degustar cachaça acompanhada de uma boa cerveja, algo que venho incentivando em minhas experiências sensoriais. É fascinante perceber como diferentes estilos e processos de produção harmonizam de maneira surpreendente.
Recentemente, a sommelière de cervejas Bia Amorim se juntou ao nosso time para aprofundar a investigação sobre as possibilidades de harmonização entre esses dois ícones da mesa brasileira: cerveja e cachaça. Mas essa interação vai além da degustação e harmonização – cada vez mais, destilarias e cervejarias têm firmado parcerias inovadoras também na produção.
Em 2024, um exemplo dessa integração foi a colaboração entre a cervejaria Três Santas e a destilaria Princesa Isabel, ambas do Espírito Santo. O resultado foi a Terra da Cachaça, uma Baltic Porter potente, com 9,5% de teor alcoólico, maturada por seis meses em barris de amburana que anteriormente envelheciam a cachaça Princesa Isabel Amburana. Assim que a cachaça foi retirada, a cerveja foi colocada nos barris, permitindo que a madeira impregnada fizesse sua mágica.

Posso declarar sem exitar que foi uma das melhores cervejas que tomei no ano passado: encorpada, ideal para depois de um almoço ou jantar, como uma sobremesa, mas sem ser muito doce e enjoativa. Para a alegria desse apreciador, novos lotes da cerveja foram confirmados para 2025, com novas parcerias no horizonte das duas empresas capixabas.
Em novembro de 2024, tive a oportunidade de participar do lançamento do documentário sobre a cachaça Famigerada e sua forte conexão com a tradição familiar e cultural mineira, um trabalho primoroso conduzido pelo produtor, Haroldo Narciso. Durante o evento, aprofundei meu conhecimento sobre a imburana, madeira muita usada para envelhecer cachaça – também chamada de amburana ou umburana em diferentes regiões do Brasil – e levei para casa duas garrafas da Famigerada Imburana, a mais nova criação de Haroldo.



Essa cachaça é fruto da parceria entre a destilaria Famigerada, de Mato Verde, no norte de Minas Gerais, e a cervejaria Holly Water, de São Caetano do Sul, São Paulo. O processo começa com o envelhecimento da cerveja Blackout, uma Russian Imperial Stout de 12,5 ABV, em barril de imburana de 100 litros. Após a cerveja ser engarrafada, o barril, agora impregnado com seus aromas e sabores, recebe a cachaça Famigerada ainda branca, que envelhece por 12 meses.
O uso de barris previamente utilizados para outras bebidas já se consolidou no mercado da cachaça, especialmente com barris que anteriormente passaram por vinho jerez, vinho do Porto, Cognac e Bourbon. Mas essa foi minha primeira experiência degustando uma cachaça finalizada em barris que antes envelheceram cerveja artesanal – e aqui vão minhas impressões.
A Famigerada Imburana apresenta uma coloração dourado-alaranjada, com lágrimas moderadas. No nariz e na boca, a percepção alcoólica parece superior aos 42% indicados no rótulo, mas não chega a incomodar – o equilíbrio entre álcool e madeira mantém a harmonia da degustação.
Por ter envelhecido em um barril de apenas 100 litros por um ano, imaginei que a imburana se destacaria de forma intensa, talvez até excessiva. No entanto, a passagem prévia da cerveja suavizou sua potência, trazendo notas adocicadas mais delicadas, com destaque para nuances florais e de bala de caramelo no nariz. Além disso, percebo notas frutadas de cereja, mel e um toque de castanhas, como coco e baru.

Na boca, a experiência começa doce e evolui para uma picância agradável, onde os sabores de caramelo se mesclam com bala de canela. No retrogosto, essa picância persiste de maneira equilibrada por um tempo moderado, acompanhada por notas de cereja, castanhas e uma leve percepção de fermentado, remetendo a pão preto. Também há características tostadas que, em um primeiro momento, me fizeram pensar em um barril tostado. Porém, acredito que esses traços sejam resultado da Russian Imperial Stout que envelheceu previamente na madeira.
A cachaça absorveu as nuances deixadas pela cerveja no barril, suavizando o dulçor intenso e o perfil medicinal característico da imburana. Seu corpo é moderado, com um final seco e complexo, onde as notas tostadas da cerveja se integram à identidade da cachaça e da madeira, conferindo personalidade à Famigerada.
O experimento de Haroldo comprova como cachaça e cerveja podem se complementar de maneira surpreendente, saindo do senso comum do que temos como padrão para cachaças envelhecidas em imburana – num mercado com tantas opções, sendo as que passam por imburana uma das mais populares, esse tipo de inovação é muito bem-vinda!
Após a excelente recepção do mercado, a produção seguirá para uma nova série, agora em barris maiores de 200 litros, garantindo que essa Famigerada passe a integrar de forma definitiva o portfólio da destilaria mineira.
Vou trazer para minha próxima avaliação a análise da cerveja Blackout também, buscando entender mais as características da cerveja e suas contribuições para a cachaça. Vamos aguardar os próximos lotes…
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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
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