A cachaça e outras bebidas tradicionais brasileiras

  • Publicado 2 anos atrás

No livro “A cachaça e outras bebidas tradicionais”, Lucas Brunozi Avelar traça um panorama das várias bebidas produzidas e consumidas no território brasileiro ao longo de sua história

A riqueza da cultura brasileira se manifesta em diferentes formas. As inúmeras bebidas que criamos ao longo de nossa história é um patrimônio que expressa esta diversidade. Por isso, conhecer e provar o repertório de bebidas tradicionais disponíveis aos nossos paladares pode ser bom ponto de partida para ampliarmos horizontes intelectuais e sensoriais. No livro “Brasil: cachaça e outras bebidas tradicionais” (Senac, 2022), estudei a história das bebidas que integraram o cotidiano da população brasileira. Pretendi fazer um levantamento dos locais, materiais e modos de produção e consumo da cachaça e de uma série de outras bebidas que fizeram parte das estruturas do nosso dia a dia.

Além da água de coco, dos sucos de frutas, da cerveja, da garapa, do chimarrão, tereré, café, quentão, vinho quente, do pingado e da jurupinga há também o caxiri, a catuaba, a jinjibirra, a cajuína, a jurubeba, o aluá, a garrafada, dentre muitas outras.

Livro Cachaça e Outras bebidas tradicionais brasileiras
Brasil: cachaça e outras bebidas tradicionais lançado pelo Senac

Na floresta com a maior biodiversidade do planeta os indígenas encontraram não apenas os cobiçados açaí e guaraná, mas também os sucos de araçá, bacaba, biribá, buriti, cajarana, camu-camu ou caçari, mapati ou curura, cupuaçu, mangaba, ingá-cipó e ingá-macaco, graviola, taperebá. Da infinidade de frutas amazônicas são feitos vinhos nutritivos que tanto refrescam nos dias quentes quanto acompanham qualquer refeição, servindo também como estimulantes, afrodisíacos, febrífugos, vermífugos e digestivos. Conhecido por dele se fazer uma “beberagem bem saborosa”, o buriti piauiense hoje tem amplo uso na alimentação e na cosmética, enquanto o raro camu-camu, que contém elevadíssimo teor de vitamina C pode ser ademais ingrediente de doces.

Das bebidas sóbrias ainda vale lembrar que a mistura de café com leite, ou ‘pingado’, ou ‘cortado’, ou ‘média’, ou ‘meio-a-meio’ era na China medicamento para tuberculosos e seu consumo foi disseminado na Alemanha e Inglaterra e só depois no Brasil.

Dentre as bebidas inebriantes, há variedade inestimável. Graças aos povos originários, os fermentados são abundantes, pois além do cauim, há o saburu ou sábulo ou ainda caxiri branco, feito de farinha de mandioca torrada; há também o kazalumaiku, ou caxiri preto. Também feito da farinha de mandioca é o parakali. Já o o kazili, de cor vermelha, é feito da raiz torrada da mandioca, enquanto o anaiyeuku é feito do milho, e o zayeuku é feito de uma espécie de batata. Por sua vez, a matéria prima do pilizaeuku é uma espécie de dioscorea, diferente do kazanalieuku que é feito da mandioca doce. Por fim, há o elupayeuku que é feito de bananas.

ilustração de indígenas preparando o cauim e outras fermentadas que podemos chamar de bebidas tradicionais brasileiras

Há inúmeros outros vinhos com doçura e cor suaves e agradável aroma feitos com milho torrado, frutos diversos, batatas etc. Existem ainda tipos vários de paiauaru, bebida alcoólica produzida a partir de longo processo de fermentação da mandioca brava. De modo geral, estas bebidas tradicionais eram consumidas por ocasião de festas e comemorações de nascimentos, nomeações, casamentos, mortes, ritos de passagem, recepção a parentes e amigos, nas cerimônias religiosas, mágicas e propiciatórias. Vale sublinhar a importância medicinal dos fermentados, que entre alguns povos indígenas eram preferidos no lugar da água pura, uma vez que o álcool eliminava impurezas causadoras de doenças. Por isso, eram consumidos por pessoas de todas as idades.

Dentre as bebidas alcoólicas não indígenas, destaque para aquelas derivadas da cana como a garapa doce e a azeda (o “vinho de mel”), além é claro dos próprios destilados. Chegaram as bebidas de origem africana, como o aluá, um fermentado composto por diferentes ingredientes e formas de preparo. Houve variações feitas com milho, arroz, casca de abacaxi, e adoçados com mel ou caldo de cana. O aluá baiano levava limonada. O historiador Luiz Felipe de Alencastro nos conta que da África Ocidental vieram também nomes para designar nosso destilado de cana. Alguns deles são angico, cumbe, geba, maçangana, malunga, mamãe-de-luanda, otim. Malungo, mulunga ou malongo são sinônimos quimbundos que nomeavam as correntes de ferro que prendiam os escravizados. Malungo também designou aqueles que tinham vindo no mesmo tumbeiro para o Brasil. Designou depois os escravos pertencentes ao mesmo senhor ou fazenda. Hoje é sinônimo de cachaça, a bebida que justamente arrancou os africanos de seu continente de origem para torná-los escravos aqui.

Mas a cachaça não é nosso único destilado. Feita da mandioca e com alto teor alcoólico, temos a tiquira (em suas versões populares e premium), recentemente reconhecida como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Maranhão.

mandioca para produção de tiquira uma bebida tradicional brasileira

Por sua vez, as garrafadas derivaram das práticas médicas jesuíticas, se espalharam pelo território e hoje integram o “arsenal terapêutico” de variadas comunidades brasileiras, a exemplo da comunidade quilombola de Olho d’Água dos Pires, no Piauí, onde se produz uma mistura com a planta muçambê, indicada para gripes e tosses. Outro exemplo são as garrafadas amazônicas para o tratamento da Malária. No Norte há uma garrafada indicada para engravidar que é feita de romã, gengibre e vinho branco seco ou suave. A garrafada para emagrecer leva pepino, beterraba, limão, hortelã, gengibre, canela e água. Para impotência, juntar cascas de catuaba e vinho. A garrafada da prosperidade é feita com moeda de cinco centavos, milho, feijão, arroz, pimenta, canela, cravo-da-índia, noz-moscada, vela preta e água; e a garrafada antitumoral é composta por unha-de-gato, ipê-roxo, canela, gnseng, gengibre, mel e extrato de própolis. Os exemplos são inúmeros.

Mais recentemente, as garrafadas atraíram o interesse de baristas, que incorporaram os compostos à coquetelaria. Os elementos da flora brasileira usados para fazer os preparados tradicionais são inseridos em coquetéis, embaralhando as fronteiras entre garrafadas e drinques. Essa apropriação de saberes e técnicas da cultura popular, que se transformam em mercadorias vendidas nos centros urbanos, expande o mercado e oferece uma alternativa às bebidas importadas.

No meu livro referi também a bebidas alcoólicas como a Xiboquinha, o Corote, a Canelinha, a Jurubeba, a Jurupinga e mesmo o Cynar, uma das primeiras populares envasadas. A produção da jurupinga, por exemplo, assim como a da cajuína, do aluá, das garrafadas e do quentão, conserva técnicas e ingredientes próprios que resistem aos processos de padronização praticados pela indústria de bebidas, garantindo por isso a continuidade dos slow drinks brasileiros. Destacar esta permanência não significa “desaguar em nacionalismo líquido e fechar os lábios para bebidas estrangeiras; trata-se apenas de não sobrevalorizar o que vem de fora em detrimento dos conhecimentos locais historicamente cultivados pelas classes populares, que produzem bebidas com sabores, valores e complexidades que mais se aproximam do que diferem das de outras terras”.

É importante, por exemplo, conhecer e experimentar o italiano Cynar, um aperitivo criado em 1948 por três irmãos padovanos. Sua fórmula une dezoito ervas infusionadas, entre elas a genciana, o cardamomo, a canela e, sobretudo, a alcachofra. Batizado justamente sob a inspiração do nome científico de seu principal ingrediente, a Cynara scolymus, o bitter era propagandeado como “o aperitivo que mata a sede” e “contra o desgaste da vida moderna”, numa Itália arrasada pela Segunda Guerra Mundial e com uma população “com vontade de voltar a sonhar”, conforme Visentin.

O recentíssimo capítulo desta história das bebidas no Brasil conta com a entrada do coquetel Rabo de Galo na lista da prestigiada Associação Internacional dos Bartenders (IBA). Depois da caipirinha, admitida pelo IBA em 1997 como um drinque genuinamente nacional, foi a vez desta mistura da cachaça com um ‘amargo’ ser integrada ao seleto grupo da coquetelaria global. Exaltação da brasilidade, defendido por uma série de pessoas, instituições e grupos do setor, com destaque para o aclamado Mestre Derivan (1955-2023), o Rabo de Galo, bebida popular brasileira há mais de meio século, teve finalmente sua autenticidade reconhecida em âmbito mundial.

Sobre o livro Brasil: cachaça e outras bebidas tradicionais

Mais detalhes sobre a história destas e de outras bebidas que fizeram e fazem parte do nosso cardápio foram contadas no livro. Convido à leitura a quem se interessar. O link para ele é este:

Brasil: cachaça e outras bebidas tradicionais (Série Universitária)

Em Brasil: cachaça e outras bebidas tradicionais são abordados desde os fermentados tradicionais indígenas até as bebidas industrializadas contemporâneas, passando pela água de coco, a cajuína, a jinjibirra, o pingado, o quentão, os sucos de frutas da Amazônia, o aluá, a catuaba, as garrafadas e os licores. Além disso, é explorada especificamente a expansão da oferta e dos usos da cachaça, dos primeiros alambiques implantados na América à incorporação do destilado de cana na gastronomia de nossos dias. O objetivo do livro é tanto proporcionar ao leitor uma visão geral da riqueza de ingestões líquidas existentes no Brasil como sublinhar a importância econômica, social e cultural da cachaça na formação do país.