O mercado da cachaça está vivendo um momento empolgante. A cada dia surgem novas ideias, experimentações com madeiras brasileiras, barris de carvalho virgem, tostas diferenciadas, novas leveduras selecionadas… Mas, na minha última viagem pelo interior de São Paulo, o que mais me surpreendeu não veio da fermentação nem do envelhecimento, e sim da primeira etapa da produção da cachaça: a extração do caldo de cana-de-açúcar.
Fui conhecer a Spinagro, em Batatais, no interior de São Paulo. A empresa é um projeto da Laura Vicentini e do Rodrigo Spina, casal de engenheiros agrônomos que enxergou uma oportunidade única: transformar uma estrutura voltada à produção de mudas de cana-de-açúcar em uma empresa também dedicada à cachaça.

A visita à fazenda foi um verdadeiro choque de realidade sobre como sustentabilidade e produção artesanal podem caminhar juntas. Tudo ali parece pensado para minimizar desperdícios e maximizar a eficiência. A água da chuva é captada para a limpeza das instalações, a energia vem do sol, e até as folhas da cana são reaproveitadas como adubo. Nada se perde. O controle de pragas é feito com bioinsumos, eliminando a necessidade de pesticidas químicos, e a cana cultivada nos 15 hectares da propriedade é 100% orgânica.






Foi essa consciência ecológica que motivou o casal a produzir cachaça. Na produção das mudas, o colmo da cana — parte com alto teor de sacarose — costuma ser descartado ou utilizado como alimento para o gado. Mas, com um olhar inovador e sustentável, a Spinagro encontrou um destino mais nobre para esse insumo: produzir cachaça exclusivamente a partir do colmo da cana. Uma iniciativa inédita no mercado, que reforça o potencial da cachaça como uma bebida cada vez mais conectada às boas práticas ambientais.
O grande negócio da Spinagro está na comercialização das mudas de cana, mas a inquietação com o desperdício do colmo levou à criação da SôZê Prata, a primeira cachaça da destilaria. O que antes era um resíduo passou a ser matéria-prima para uma cachaça de qualidade.



A poucos metros da linha de produção das mudas está a estrutura dedicada à cachaça, com engenho, sala de fermentação e alambiques. No momento, a SôZê ainda não investiu em uma adega para armazenar cachaça em madeira. Apesar de usar apenas o colmo da cana, toda a estrutura da destilaria é a mesma tradicional para produção de aguardente.
Após a extração do caldo, a fermentação ocorre com a levedura CA-11, sem adição de aditivos. A destilação acontece em dois alambiques Santa Efigênia, com capacidade anual de produzir 60 mil litros de cachaça. Todo o processo é acompanhado de perto pela Roberta, que, além de se especializar em cachaça participando de diversos cursos, é uma reconhecida cozinheira em Batatais.

Em 2023, vivi de perto o mundo corporativo e vi como o ESG (ambiental, social e governança) se tornou uma prioridade no mercado – mas muitas vezes tratado como um simples checklist na lista de to-dos do empreendedor. Mas na Spinagro, ESG não é só discurso: é um compromisso genuíno que guia toda a operação e se reflete em certificações e reconhecimentos no setor.
O impacto vai além da sustentabilidade ambiental, presente desde o canavial até o uso de materiais reciclados na comunicação da marca (sacolas feitas a partir de banners reutilizados embalam as garrafas da SôZê). A Spinagro também se destaca pelo forte engajamento social.
A equidade de gênero é uma realidade consolidada na Spinagro, algo ainda raro no agronegócio e na produção de cachaça. Atualmente, 60% da equipe é composta por mulheres, que ocupam 75% dos cargos de liderança. Esse protagonismo feminino vai além de um simples número; representa uma transformação estrutural que promove um ambiente mais inclusivo e representativo. Outras marcas de cachaça, como Maria Izabel, Da Quinta, Cana e Lua, Germana, Alzira, Campanari e Sanhaçu, já seguem esse mesmo caminho.


Além disso, a Spinagro garante que todos os funcionários sejam contratados formalmente, respeitando normas trabalhistas e oferecendo condições dignas e seguras de trabalho – é estranho falar que esse seja um ponto a se destacar, mas num mercado dominado pela informalidade, essa consciência precisa ser valorizada. Esse compromisso com o bem-estar dos funcionários ficou evidente na minha visita: ao soar de uma sirene, todos os trabalhadores interromperam suas atividades para um momento de descanso, um detalhe simples, mas que reforça o respeito às pessoas que fazem essa roda do agronegócio girar (um infame trocadilho com Spinagro).
A SôZê adota uma estratégia de posicionamento global inteligente, alinhada às crescentes demandas internacionais por sustentabilidade e produção responsável. Essas qualidades tornam a cachaça uma excelente opção para o mercado externo.
Não é surpresa que os empreendedores tenham optado por focar inicialmente na exportação antes de expandir sua presença no Brasil. Com o real desvalorizado e consumidores estrangeiros cada vez mais exigentes por produtos sustentáveis, essa abordagem faz todo o sentido. Com o apoio da Apex, a marca conseguiu expandir sua presença para quase 10 países.

“A gente faz um estudo robusto em todos os mercados que vamos entrar. Com a ajuda dessas agências, recebemos muitos estudos de mercado sobre como a cachaça está posicionada lá, se há espaço para entrar e se existe potencial de crescimento. Com base nesses estudos, decidimos se vamos investir no mercado ou não”,
explica Laura Vicentini
Saí da Spinagro impressionado. Mais do que uma cachaça de alambique, eles criaram um modelo a ser seguido – uma abordagem inovadora, consciente e comprometida com o futuro da cachaça ao pensar em sustentabilidade e exportação.
Após a visita, aproveitei para conhecer a Margô e a Barra Grande, que ficam bem perto da SôZê. Foram experiências incríveis que abordo em outros artigos e que reforçaram minha percepção de que o interior de São Paulo não é apenas terra de etanol e cana-de-açúcar, mas também de produtores com muito a oferecer a quem busca qualidade e inovação na cachaça. Se o mercado está se transformando, isso é fruto de iniciativas como essas.
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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
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