SôZê: A cachaça que une sustentabilidade, inovação e impacto social no interior de São Paulo

  • Publicado 12 meses atrás

Visitei a Spinagro, em Batatais, e descobri como a cachaça SôZê une inovação e sustentabilidade em um modelo de economia circular. Um exemplo a ser seguido no mercado da cachaça!

Inovação no uso da cana-de-açúcar

O mercado da cachaça está vivendo um momento empolgante. A cada dia surgem novas ideias, experimentações com madeiras brasileiras, barris de carvalho virgem, tostas diferenciadas, novas leveduras selecionadas… Mas, na minha última viagem pelo interior de São Paulo, o que mais me surpreendeu não veio da fermentação nem do envelhecimento, e sim da primeira etapa da produção da cachaça: a extração do caldo de cana-de-açúcar.

Fui conhecer a Spinagro, em Batatais, no interior de São Paulo. A empresa é um projeto da Laura Vicentini e do Rodrigo Spina, casal de engenheiros agrônomos que enxergou uma oportunidade única: transformar uma estrutura voltada à produção de mudas de cana-de-açúcar em uma empresa também dedicada à cachaça.

produtores da cachaça SôZé
Rodrigo Spina e Laura Vicentini, produtores da cachaça SôZé

A visita à fazenda foi um verdadeiro choque de realidade sobre como sustentabilidade e produção artesanal podem caminhar juntas. Tudo ali parece pensado para minimizar desperdícios e maximizar a eficiência. A água da chuva é captada para a limpeza das instalações, a energia vem do sol, e até as folhas da cana são reaproveitadas como adubo. Nada se perde. O controle de pragas é feito com bioinsumos, eliminando a necessidade de pesticidas químicos, e a cana cultivada nos 15 hectares da propriedade é 100% orgânica.

Foi essa consciência ecológica que motivou o casal a produzir cachaça. Na produção das mudas, o colmo da cana — parte com alto teor de sacarose — costuma ser descartado ou utilizado como alimento para o gado. Mas, com um olhar inovador e sustentável, a Spinagro encontrou um destino mais nobre para esse insumo: produzir cachaça exclusivamente a partir do colmo da cana. Uma iniciativa inédita no mercado, que reforça o potencial da cachaça como uma bebida cada vez mais conectada às boas práticas ambientais.

Mais detalhes da produção da cachaça SôZé

O grande negócio da Spinagro está na comercialização das mudas de cana, mas a inquietação com o desperdício do colmo levou à criação da SôZê Prata, a primeira cachaça da destilaria. O que antes era um resíduo passou a ser matéria-prima para uma cachaça de qualidade.

A poucos metros da linha de produção das mudas está a estrutura dedicada à cachaça, com engenho, sala de fermentação e alambiques. No momento, a SôZê ainda não investiu em uma adega para armazenar cachaça em madeira. Apesar de usar apenas o colmo da cana, toda a estrutura da destilaria é a mesma tradicional para produção de aguardente.

Após a extração do caldo, a fermentação ocorre com a levedura CA-11, sem adição de aditivos. A destilação acontece em dois alambiques Santa Efigênia, com capacidade anual de produzir 60 mil litros de cachaça. Todo o processo é acompanhado de perto pela Roberta, que, além de se especializar em cachaça participando de diversos cursos, é uma reconhecida cozinheira em Batatais.

Felipe Jannuzzi e Roberta Fernandes de Oliveira
Eu e a mestre alambiqueira da SôZé, a Roberta Fernandes de Oliveira

ESG e SôZé: meio-ambiente, social e governança

Em 2023, vivi de perto o mundo corporativo e vi como o ESG (ambiental, social e governança) se tornou uma prioridade no mercado – mas muitas vezes tratado como um simples checklist na lista de to-dos do empreendedor. Mas na Spinagro, ESG não é só discurso: é um compromisso genuíno que guia toda a operação e se reflete em certificações e reconhecimentos no setor.

O impacto vai além da sustentabilidade ambiental, presente desde o canavial até o uso de materiais reciclados na comunicação da marca (sacolas feitas a partir de banners reutilizados embalam as garrafas da SôZê). A Spinagro também se destaca pelo forte engajamento social.

A equidade de gênero é uma realidade consolidada na Spinagro, algo ainda raro no agronegócio e na produção de cachaça. Atualmente, 60% da equipe é composta por mulheres, que ocupam 75% dos cargos de liderança. Esse protagonismo feminino vai além de um simples número; representa uma transformação estrutural que promove um ambiente mais inclusivo e representativo. Outras marcas de cachaça, como Maria Izabel, Da Quinta, Cana e Lua, Germana, Alzira, Campanari e Sanhaçu, já seguem esse mesmo caminho.

Além disso, a Spinagro garante que todos os funcionários sejam contratados formalmente, respeitando normas trabalhistas e oferecendo condições dignas e seguras de trabalho – é estranho falar que esse seja um ponto a se destacar, mas num mercado dominado pela informalidade, essa consciência precisa ser valorizada. Esse compromisso com o bem-estar dos funcionários ficou evidente na minha visita: ao soar de uma sirene, todos os trabalhadores interromperam suas atividades para um momento de descanso, um detalhe simples, mas que reforça o respeito às pessoas que fazem essa roda do agronegócio girar (um infame trocadilho com Spinagro).

Uma cachaça de olho na exportação

A SôZê adota uma estratégia de posicionamento global inteligente, alinhada às crescentes demandas internacionais por sustentabilidade e produção responsável. Essas qualidades tornam a cachaça uma excelente opção para o mercado externo.

Não é surpresa que os empreendedores tenham optado por focar inicialmente na exportação antes de expandir sua presença no Brasil. Com o real desvalorizado e consumidores estrangeiros cada vez mais exigentes por produtos sustentáveis, essa abordagem faz todo o sentido. Com o apoio da Apex, a marca conseguiu expandir sua presença para quase 10 países.

Laura Vicentini
Laura Vicentini, olhar na sustentabilidade e no mercado exterior

“A gente faz um estudo robusto em todos os mercados que vamos entrar. Com a ajuda dessas agências, recebemos muitos estudos de mercado sobre como a cachaça está posicionada lá, se há espaço para entrar e se existe potencial de crescimento. Com base nesses estudos, decidimos se vamos investir no mercado ou não”,

explica Laura Vicentini

A crescente qualidade da cachaça paulista

Saí da Spinagro impressionado. Mais do que uma cachaça de alambique, eles criaram um modelo a ser seguido – uma abordagem inovadora, consciente e comprometida com o futuro da cachaça ao pensar em sustentabilidade e exportação.

Após a visita, aproveitei para conhecer a Margô e a Barra Grande, que ficam bem perto da SôZê. Foram experiências incríveis que abordo em outros artigos e que reforçaram minha percepção de que o interior de São Paulo não é apenas terra de etanol e cana-de-açúcar, mas também de produtores com muito a oferecer a quem busca qualidade e inovação na cachaça. Se o mercado está se transformando, isso é fruto de iniciativas como essas.

Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.