A memória de um químico e a influência da mitologia na produção da cachaça Divina Cana

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Divina Cana — de curtumes a alambique — como lembranças de infância, mudança de profissão e um encontro inesperado levaram o casal Paulo Rodrigues e Regina Helena a transformar Três Pontas (MG) em destino turístico de cachaça.

A trajetória da cachaça Divina Cana começa bem antes da primeira garrafa. Nascido em Aguaí (SP), perto de Pirassununga, Paulo Rodrigues cresceu entre histórias que uniam o ofício do pai — químico responsável por curtumes — e as memórias da vida na roça.

Ainda menino, mudou-se com a família para Itabirito, em Minas Gerais, no fim dos anos 1970. Era um tempo sem internet nem celular, em que os passeios de fim de semana revelavam fazendas, trilhos de trem e pequenos alambiques. Nessas visitas, o pai lhe mostrava como moendas e tachos produziam açúcar, rapadura e cachaça, e recordava o engenho do próprio avô, movido por uma égua mansa que, após o trabalho, sempre ganhava doces colmos de cana.

Essas imagens ficaram guardadas, ainda que Paulo não imaginasse, naquela época, que se tornariam parte de seu futuro. De volta ao interior paulista, começou cedo no mundo da química industrial: aos 14 anos já trabalhava ao lado do pai. Passou décadas nesse caminho até que, em 1999, decidiu com a esposa, Regina Helena, mudar-se para Três Pontas, em Minas Gerais. A ideia de fazer cachaça, no entanto, só surgiria quase vinte anos depois — provocada por uma perda pessoal.

Cachaça Divina Cana Paulo e Regina
Paulo e Regina, produtores da cachaça Divina Cana em Três Pontas, Minas Gerais

Um encontro mitológico e o início da Divina Cana

Em 2015, a morte do pai de Paulo reavivou lembranças da infância. No ano seguinte, ao passar por uma casa com a placa “Consertam-se tachos de cobre e alambique”, Paulo decidiu entrar. Quem o recebeu foi Hércules, um artesão cigano. Dali saiu com o primeiro alambique, pequeno e rudimentar, feito sob encomenda.

Regina estranhou o projeto, mas apoiou. Vieram também um decantador, caixas de fermentação e a primeira destilação. “Apesar de nunca ter feito cachaça, como alguém que estudou sobre química, eu sabia como era esse processo”, recorda Paulo. O hobby logo ganhou força. Amigos passaram a provar e incentivar, até que ele percebeu que precisava dar um passo maior.

Em 2019, o casal decidiu oficializar o projeto e regularizar a produção. Surgia a Divina Cana.

De passatempo a negócio: a consolidação da Divina Cana

O crescimento veio com estudo e registro. Paulo se inscreveu em um curso de destilação em Belo Horizonte e Regina, inicialmente para não ficar sozinha no hotel, acabou assistindo às aulas também. “Aprendemos juntos. Foi ali que vimos que o caminho poderia ser muito maior do que imaginávamos”, lembra ela.

A estrutura caseira foi substituída por equipamentos de referência: alambique novo, caixas de inox para fermentação e barricas de bálsamo, amburana, castanheira e jequitibá-rosa. A cada investimento, a qualidade melhorava. Hoje, a Divina Cana ocupa quase 500 metros quadrados de área construída, produz em média 15 mil litros por ano e conta com 4 hectares de cana própria.

Enquanto Paulo cuida da produção, Regina assumiu a parte comercial.

“Não queríamos só vender cachaça. Era preciso ter valor, contar uma história, ter essência”,

Paulo Rodrigues, Divina Cana

O turismo da cachaça em Três Pontas

Se a cidade de Três Pontas, que fica praticamente no meio do caminho entre São Paulo e Belo Horizonte, é conhecida como a maior produtora de café do Brasil, hoje também atrai turistas interessados em conhecer a produção de cachaça por causa da Divina Cana. A propriedade de Paulo e Regina, inicialmente pensada como um sítio familiar, tornou-se um espaço de visitação.

Os visitantes chegam atraídos tanto pela bebida, quanto pela experiência de ver de perto como uma cachaça é feita. Podem conhecer as etapas da produção e ouvir as histórias do casal. “Não basta provar a cachaça, é preciso entender como ela nasce”, comenta Paulo.

Aproveitando-se do turismo, a Divina Cana criou um experiência gastronômica e oferece um cardápio especial, assinado por um chef de cozinha, para a degustação harmonizada das cachaças com comidas tradicionais da cozinha mineira.

“Receber visitantes é uma forma de valorizar o nosso trabalho. Abrimos as portas para que vejam cada detalhe produtivo e apreciem uma bebida feita com amor e qualidade”,

diz Regina.

Mitologia romana em cada garrafa da Divina Cana

Escolher o nome da marca foi um desafio. Com mais de 9,5 mil registros de cachaça no Brasil, quase todas as ideias iniciais já estavam tomadas. Foi então que a mitologia voltou a cruzar o caminho do casal.

Nesse universo, deuses simbolizam forças da natureza, virtudes e a transformação — metáforas que dialogam com a alquimia da destilação.  “A mitologia não foi só uma escolha de nomes, mas de toda a identidade visual da Divina Cana”, explica Regina.

Assim nasceram os rótulos da Divina Cana: Júpiter, cachaça envelhecida em carvalho americano e francês; Febo, um blend de amburana e jequitibá-rosa; Vulcano, que combina carvalho e jequitibá; e Netuno, a cachaça prata, translúcida como a água. Só para citar algumas.

Técnica adaptadas no processo produtivo da cachaça

Se a memória afetiva e a mitologia dão o tom da identidade da Divina Cana, é no processo produtivo que Paulo aplica toda a sua bagagem de conhecimentos com química. A produção usa cana própria, leveduras selecionadas e fogo direto. Com um detalhe: o alambique de cobre da Divina Cana é híbrido. Uma invenção de Paulo, que une bagaço da cana e energia elétrica para otimizar a destilação.

“Primeiro usamos o bagaço e um pouco de lenha para garantir potência e esquentar rápido a panela. Depois entra o aquecimento elétrico, que mantém a temperatura mais linear e controlada durante toda destilação. Para um pequeno produtor como nós, tem se mostrado uma solução econômica”, explica.

Esse controle de temperatura também se estende à fermentação. Paulo desenvolveu um sistema elétrico próprio para aquecer ou resfriar o mosto, mantendo as leveduras sempre em condições de temperatura ideais e constantes durante a fermentação. “Aqui em Três Pontas o inverno é rigoroso. O caldo chega da moagem a 10 graus, e se a levedura não tiver estímulo, demora a agir. Então instalamos resistências simples, com termostato, nada sofisticado”. O sistema aquece o tanque de fermentação quando a temperatura está abaixo de 24 graus e resfria ao atingir 30 graus, mantendo o equilíbrio.

É desse equilíbrio que a Divina Cana se sustenta: um projeto que nasceu de uma lembrança, cresceu como passatempo e hoje é uma marca mineira que tem mudado a região onde está inserida apostando no turismo. Mais do que oferecer uma bebida de qualidade, o objetivo é abrir portas para que cada visitante leve consigo uma nova experiência.

Três Pontas - Cafezal e Canavial
Paulo entre o canavial e os cafezais em Três Pontas, Minas Gerais

Ana Paula Palazi é jornalista pela PUC-Campinas, mestra em Divulgação Científica e Cultural e especialista em Jornalismo Científico pela Unicamp. Atuou por dez anos como produtora e repórter de telejornal. Foi repórter de rede em emissora afiliada da Record TV, de 2016 a 2020. É produtora de conteúdo, atuando em trabalhos sobre cachaça, inovação e empreendedorismo.