Recentemente, escrevi um artigo em que destaquei o atual momento do mercado da cachaça, onde as inovações nos processos de produção caminham lado a lado com as práticas tradicionais. O artigo teve uma excelente repercussão, e por isso, achei relevante apresentar uma cachaça que exemplifique perfeitamente essa junção de tradição e inovação.
A Cachaça Jeceaba é um símbolo do atual momento do mercado de cachaça, onde tradição e inovação se encontram em harmonia. Produzida em Jeceaba, na Fazenda Bela Vista, localizada na histórica Estrada Real de Minas Gerais, o portfólio das cachaças produzidas neste alambique mineiro se destacam por representar a essência da cachaça artesanal, sem deixar de lado as melhorias tecnológicas.
“Somos adeptos da tradição da cachaça de alambique, mas não estáticos às melhorias que podem efetivamente agregar qualidade, produtividade e inovação sem perder o sabor”.
Roger Sejas, produtor da Jeceaba
A cachaça Jeceaba Clássica é produzida seguindo a tradição da Escola Caipira, um método que valoriza a autenticidade e a história da cachaça. A fermentação é com leveduras selvagens, utilizando substratos naturais, como fubá e farelo de arroz, enriquecendo a cachaça com as características únicas do bioma regional.
Após a fermentação, a destilação é realizada em alambiques de cobre aquecidos por fogo direto. O alambique, equipado com uma coluna capelo, uma espécie de chapéu que resfria e condensa os vapores da destilação, aproxima a jovem cachaça Jeceaba do passado cultural do destilado.

Os produtores da Jeceaba seguem rigorosamente a receita centenária para a produção de cachaça. No entanto, a inovação surge após a destilação: a cachaça passa por um processo de micro-oxigenação em tanques de inox, uma técnica relativamente nova no setor, mais comumente usada na produção de vinhos. Esse método envolve a adição controlada de pequenas quantidades de oxigênio à cachaça recém-destilada, com o objetivo de reproduzir os benefícios da oxidação natural que ocorre durante o envelhecimento em barris de madeira.
“Essa oxigenação vai criar cristais de sabores, consolidando moléculas que efetivamente vão contribuir bastante para o desenvolvimento de sabores essenciais da cachaça branca”,
explica Roger Sejas

A Jeceaba Clássica é uma cachaça incolor, de lágrimas lentas, com um aroma que remete à fermentação caipira, trazendo notas de cereal, fermentado, lácteo, feno e pêra. Embora existam excelentes cachaças feitas com leveduras comerciais, é especialmente gratificante quando se encontra uma cachaça bem-feita usando leveduras selvagens e técnicas tradicionais. No corpo, ela tem uma textura média e uma sensação fresca na boca. No paladar, revela sabores vegetais, garapa, uma leve mineralidade e um sutil toque salino e medicinal. O final é de duração média a curta, deixando um doce de cana suave e agradável. É uma autêntica branquinha mineira, bem-feita e fiel às suas raízes.
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A cachaça Jeceaba Moderna é uma edição especial, lançada em comemoração ao Centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Essa conexão não é apenas nominal; a Jeceaba Moderna, assim como o movimento artístico que inspira seu nome, une o que há de mais autêntico e tradicional no Brasil a influências e técnicas contemporâneas.
Embora respeite as raízes da produção tradicional na sua base branca, esta Jeceaba se destaca pela inovação no envelhecimento em madeira. Nos últimos anos, os produtores tem tido acesso a barris virgens ou de primeiro uso de carvalho americano com tostas diversas – é um movimento que começou na última década e quem vem sendo aderindo por produtores em diversos cantos do Brasil. Anteriormente, as cachaças eram envelhecidas em carvalhos exauridos, sendo a maioria descarte da indústria de whisky ou outras bebidas alcoólicas. Hoje, além de poderem trabalhar com todo o potencial dos barris novos, os produtores podem customizar os níveis de tosta dos barris, trazendo ainda novas camadas de diversidade de sabor.
Seguindo esse potencial, a cachaça Jeceaba Moderna passa por envelhecimento sequencial de quatro anos: dois anos em tonéis de jequitibá-rosa, uma madeira nativa que confere suavidade e complexidade à bebida, e mais dois anos em barris novos de carvalho americano, com tosta nível 3 da ISC/Premier Pack. Este último passo é uma inovação significativa, que introduz notas de caramelo, chocolate amargo e avelã, trazendo uma nova dimensão de sabor e complexidade à cachaça.
A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um marco na cultura brasileira, propondo a fusão de elementos nacionais com influências estrangeiras. A Jeceaba Moderna captura esse espírito ao combinar a tradição brasileira da cachaça com técnicas modernas e influências internacionais, como o uso de barris de carvalho americano e técnicas de tosta importadas. A cachaça reflete essa união em seu perfil sensorial: aromas complexos, sabores encorpados e um final longo e elegante.

“Percebemos que existe público para essas cachaças sofisticadas. Estamos investindo em outros barris desta natureza, seja de carvalho americano ou francês, para soltar novos produtos diferenciados”,
Roger Sejas, produtor e mestre de adega da Jeceaba
Com apenas 320 garrafas numeradas, a Cachaça Jeceaba Moderna representa o que há de melhor atualmente no mercado da cachaça artesanal. Ela é uma celebração da brasilidade, com influências estrangeiras, do passado sem abrir mão da inovação, tudo em uma garrafa que carrega o espírito audacioso do produtor brasileiro.
R$ 250 – comprar no Ateliê de Cachaça
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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
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