Cachaça Pedra Branca de Paraty: história, produção e visitação ao alambique de Lúcio Gama Freire

  • Publicado 2 horas atrás

O trabalho de Lúcio Gama Freire na Cachaça Pedra Branca combina pesquisa agrícola, fermentação com leveduras selecionadas, primoroso trabalho com carvalho e a valorização da tradição cultural da cachaça em Paraty.

Um alambique na encosta da Mata Atlântica

A Cachaça Pedra Branca começou a tomar forma em 2007 e iniciou sua produção em 2009, sob a direção de Lúcio Gama Freire. Em uma cidade onde a história da cachaça atravessa séculos, o alambique nasce relativamente recente, mas profundamente conectado à tradição local.

canavial Pedra Branca
Canavial da Pedra Branca com vista para o porto de Paraty

Lúcio é primo de Casé, produtor da Paratiana, e coautor do livro Mucungo, obra dedicada à história da cachaça no litoral sudeste brasileiro. O título do livro carrega uma palavra tradicional da região: mucungo, termo de origem africana usado em Paraty para designar o caldo de cana fermentado, bebida que ainda hoje é lembrada por moradores mais antigos da cidade. A palavra revela como a cultura da cana e da fermentação sempre esteve presente no cotidiano local, muito antes da consolidação da cachaça como produto comercial.

Além da produção, Lúcio também participa das iniciativas da APACAP — Associação dos Produtores e Amigos da Cachaça de Paraty, que reúne produtores da cidade em torno da preservação da cultura da cachaça.

O alambique está localizado na Estrada da Pedra Branca, em uma área preservada da Mata Atlântica onde a paisagem alterna cachoeiras, montanhas e vistas para a Baía de Paraty. A região é atravessada por um trecho da antiga Estrada da Patrulha, ligada ao histórico Caminho do Ouro, rota colonial que conectava o litoral fluminense às regiões mineradoras de Minas Gerais. Produzir cachaça ali é continuar uma atividade que acompanha a própria história da cidade.

Lúcio Gama no alambique da cachaça Pedra Branca em Paraty, Rio de Janeiro
Lucia Gama Freire, produtor da cachaça Pedra Branca – entre os 10 melhores mestres de adega pelo Guia Mapa da Cachaça

A cana e o trabalho de produção

Os canaviais da Pedra Branca estão distribuídos em oito áreas diferentes que somam cerca de seis hectares. Desde o início do projeto houve interesse em entender quais variedades de cana se adaptariam melhor às condições climáticas da região.

Em parceria com pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro foram analisadas cerca de quarenta variedades de cana-de-açúcar. Entre elas, a RB 7515 apresentou bom desempenho diante do clima úmido de Paraty, marcado por chuvas frequentes e invernos amenos.

A pandemia de Covid-19 trouxe dificuldades para o trabalho agrícola e em alguns momentos o alambique passou a utilizar cana proveniente de Caçapava, no interior de São Paulo. Em 2023 foi iniciado um viveiro de mudas para renovar gradualmente os canaviais e fortalecer novamente o cultivo local.

Na produção, a Pedra Branca combina práticas tradicionais com controle técnico. A fermentação ocorre em dornas de aço inox com controle de temperatura e uso de leveduras selecionadas, entre elas as cepas CanaMax, RM (Lallemand) e CA-11, utilizadas ao longo da safra para garantir estabilidade do processo. A água empregada vem de fontes naturais e é utilizada no ajuste do mosto antes da fermentação. Esse conjunto de cuidados ajuda a manter regularidade e precisão no perfil das cachaças produzidas.

A adega da Cachaça Pedra Branca e a Reserva da Grace

Uma parte importante do trabalho do alambique acontece na adega. Lúcio desenvolveu ao longo dos anos experimentos com diferentes madeiras e tempos de maturação, buscando equilíbrio entre a influência da madeira e a expressão da cachaça branca, tão típica de Paraty.

Esse trabalho levou Lúcio a figurar entre os dez melhores mestres de adega do Brasil no Guia Mapa da Cachaça, reconhecimento ligado à consistência de seus envelhecimentos.

Um exemplo desse trabalho é a Pedra Branca Reserva da Grace, lançada em 2023. A cachaça foi criada como um presente para sua esposa Grace, celebrando os oito anos de casamento do casal e os quarenta anos dela.

Cachaça Pedra Branca envelhecid aem carvalho
Reserva da Grace, cachaça com destaque no nosso Guia Mapa da Cachaça

Envelhecida por oito anos em barris de carvalho americano, a Reserva da Grace é a cachaça mais envelhecida já produzida pelo alambique. O lote foi limitado a apenas 400 garrafas. A bebida apresenta cor âmbar brilhante e lágrimas lentas no copo. No aroma aparecem notas de baunilha, caramelo e chocolate, acompanhadas por nuances de couro e um toque delicado que lembra bolo de abacaxi. Na boca a textura é aveludada, com sabores de baunilha, chocolate e toffee, conduzindo a um final persistente e elegante.

Denominação de Origem Paraty

A cidade de Paraty teve sua Denominação de Origem reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial em 2017. O reconhecimento formaliza a relação histórica entre o território e a produção de cachaça, estabelecendo critérios para os produtores da região.

Os produtores de cachaça de Paraty, primeira Denominação de Origem da Cachaça com Felipe Jannuzzi, do Mapa da Cachaça
Os produtores de cachaça de Paraty, primeira Denominação de Origem da Cachaça com Felipe Jannuzzi, do Mapa da Cachaça

Esse processo foi construído ao longo de anos por produtores e pesquisadores locais reunidos na APACAP. Lúcio participou diretamente das discussões técnicas e institucionais que ajudaram a estruturar o dossiê apresentado ao INPI, contribuindo para consolidar o reconhecimento da cachaça de Paraty como produto ligado ao território.

Gabriela e Caramelada da Cachaça Pedra Branca

A produção da Pedra Branca também dialoga com outra tradição da cidade: as bebidas aromatizadas feitas a partir da cachaça. Em bares e festas de Paraty, especialmente a partir da década de 1980, tornou-se comum enriquecer a aguardente com melado, frutas e especiarias.

Foi nesse ambiente que surgiram receitas que hoje fazem parte da identidade da cidade, como a Caramelada e a Gabriela Cravo e Canela. Durante muitos anos, especialmente nas primeiras edições do Festival da Cachaça de Paraty, essas bebidas eram consumidas em volume muito maior que a própria cachaça pura.

A Caramelada Pedra Branca é produzida a partir da cachaça branca da cachaçaria. A bebida recebe uma infusão de gengibre e depois é composta com melado de cana produzido no próprio alambique. O melado confere a cor caramelo intensa e aromas que remetem à rapadura e ao açúcar mascavo. Após a preparação, a bebida é armazenada em tanques de aço inox.

A Gabriela Cravo e Canela parte da mesma base de cachaça branca. Nela é realizada uma infusão de cravo-da-índia e canela em casca, seguida da adição de melado de cana. A bebida apresenta cor rubi e aromas marcantes de especiarias. Pode ser consumida pura, gelada, ou utilizada no preparo do Jorge Amado, coquetel que já virou patrimônio cultura de Paraty.

Gabriela Cravo e Canela de Paraty com destaque para a cachaça Pedra Branca
As quatro Gabriela produzidas em Paraty, cada produtor tenha a sua receita. A da cachaça Pedra Branca leva melado, produzido na própria destilaria, cravo e canela.
jorge-amado-coquetel-mapadacachaca.

Drink Jorge Amado, com Gabriela Cravo e Canela

Camila Paiva
Maracujá, açúcar, limão e a aguardente Gabriela Cravo e Canela são os ingredientes do coquetel Jorge Amado – a receita foi criada em Paraty para homenagear o autor e a atriz Sônia Braga.
4.80 de 5 votos
Servings 1 porção

Equipamentos

  • 1 coqueteleira
  • 1 copo estilo caipirinha
  • 1 faca para cortar frutas

Ingredientes
  

  • 1 limão-taiti
  • 1⁄2 maracujá
  • 5 g de açúcar
  • 50 ml de aguardente composta Gabriela Cravo e Canela (de qualquer produtor de Paraty)
  • gelo

Instruções
 

  • Corte o limão como se fosse para uma caipirinha. Na coqueteleira, macere-o com o maracujá e o açúcar.
  • Adicione a aguardente Gabriela e o gelo. Bata na coqueteleira.
  • Sirva num copo de caipirinha sem coar.

Turismo, visitação e a loja no Centro Histórico

A Pedra Branca também se tornou uma parada frequente nos roteiros turísticos de Paraty. Agências que operam no Centro Histórico organizam visitas ao alambique, levando turistas de diversas partes do Brasil e do mundo até os alambiques Pedra Branca, Paratiana e Engenho D’Ouro, todos localizados na estrada sentido Cunha.

Durante as visitas, os grupos percorrem as instalações de produção, conhecendo as etapas que vão do recebimento da cana até a destilação. O passeio permite observar de perto o funcionamento do alambique e entender como a cachaça é produzida naquele território.

felipe lucio grace pedra branca Cachaça Pedra Branca de Paraty: história, produção e visitação ao alambique de Lúcio Gama Freire
Felipe, editor do Mapa da Cachaça, com Grace e Lúcio no Mucungo Arte & Cachaça

A experiência termina na loja do próprio alambique, onde os visitantes podem provar e adquirir os rótulos da casa. No Centro Histórico de Paraty também é possível encontrar as cachaças da Pedra Branca na Mucungo Arte & Cachaça, loja criada por Lúcio e Grace que reúne garrafas dos alambiques de Paraty, objetos ligados à cultura da cachaça e peças de arte popular brasileira. Tanto no alambique quanto na loja, o atendimento é feito por uma equipe treinada e bilíngue, preparada para receber visitantes de diferentes países que chegam à cidade interessados em conhecer a tradição da cachaça de Paraty.

O Mapa da Cachaça é um projeto cultural e educativo criado com o objetivo de divulgar e valorizar a cachaça, que é um patrimônio cultural e um dos símbolos da identidade brasileira.

Receitas

Sem resultados