
Em 2019, desenvolvi o conceito da Escola do Coração Bruto para descrever um estilo particular de cachaça, conhecida popularmente como cachaça raiz. Esse estilo é propagado por diversos produtores orgulhosos de sua tradição e autenticidade de manter a essência da cachaça branquinha. Mas, o que exatamente caracteriza uma cachaça raiz? Vamos explorar as nuances desse estilo da cachaça, destacando suas características, filosofia de produção e exemplos notáveis.
Alguns produtores vêm promovendo cachaças que se diferenciam por sua pureza e autenticidade, chamando-as de cachaça raiz. Essas cachaças são produzidas com um mínimo de intervenção, não envelhecidas em madeira, e com pouca diluição após a destilação. O objetivo é preservar ao máximo os sabores e aromas da cana-de-açúcar.
Ao buscar uma compreensão mais profunda dos diferentes estilos de cachaça, criei o conceito da Escola do Coração Bruto para identificar essas cachaças brancas especiais. Esse nome captura a essência dessas cachaças raízes.


É a experiência intensa da cachaça de origem, que destaca o talento do produtor em controlar todas as etapas da produção, resultando em uma bebida autêntica e sem artifícios. Essas cachaças se revelam de forma transparente para aqueles que buscam a essência pura do destilado de cana. Elas são cachaças bem elaboradas, onde a presença alcoólica é perceptível, que conforta e aquece, mas são também equilibradas por uma acidez harmoniosa. Como diz Nando Chaves, produtor da Século XVIII e de algumas cachaças da linha Santo Grau:
É a cachaça cachecol de seda, que esquenta o peito, mas não queima a garganta.”
Nando Chaves
Pimenta que não arde, cachorro que não morde e cachaça que não é forte, não resolve!
Nando Chaves
Os consumidores da cachaça do Coração Bruto são verdadeiros conhecedores de destilados intensos e potentes. Eles buscam o dulçor e o frutado únicos de um destilado de cana bem produzido. Esses apreciadores compreendem e valorizam a complexidade e a riqueza sensorial que essas cachaças oferecem, saboreando cada gole com atenção e cuidado, ao invés de consumi-las rapidamente numa única talagada. Se há uma cachaça raiz, podemos chamar esse consumidor de “cachaceiro raiz”.

A Magnífica Bica do Alambique, como o nome já sugere, oferece uma autêntica experiência da cachaça fresca, diretamente do alambique. Produzida pela família Faria em Vassouras, Rio de Janeiro, seu processo de produção minimiza a diluição, com breve armazenamento em tanques de inox e engarrafamento em lotes de 1 a 2 meses para manter o frescor.
Destaca-se pelo uso do raro alambique de três corpos, conhecido como Alegria. No nariz, apresenta aromas frescos de anis, melão, eucalipto e feno, revelando-se uma cachaça viva e complexa.
O portfólio da Magnífica é um dos mais diversos do mercado, e a Bica do Alambique tem como madrinha Elk Barreto, produtora da cachaça Sanhaçu.

A Cachaça Sanhaçu Origem é um exemplar autêntico da Escola do Coração Bruto. Como o próprio nome sugere, é a cachaça que dá origem a todas as outras da destilaria. Sem passar por qualquer tipo de madeira de armazenamento, descansa apenas em tonéis de inox por seis meses, preservando sua essência pura e robusta.
Com um teor alcoólico de 47%, a Sanhaçu Origem se destaca por sua força e intensidade, mas também por sua suavidade e maciez. Seu aroma adocicado evoca os derivados da cana, com notas doces que remetem diretamente à cana-de-açúcar. Produzida pela família Barreto Silva em Chã Grande, na Zona da Mata pernambucana, a apenas 85 km de Recife e 15 km de Gravatá, cidade turística conhecida pela arquitetura secular e artesanatos, a Sanhaçu Origem carrega consigo uma rica tradição familiar de apaixonados por cachaça.

A Cachaça Século XVIII é armazenada em tonéis de inox por um ano, resultando em uma bebida com 48% de graduação alcoólica. Destaca-se por sua harmoniosa composição, onde o aroma do álcool é perceptível, mas não agressivo, remetendo ao caldo de cana em início de fermentação. Os aromas frutados de maçã e casca de laranja são notáveis, enquanto no paladar prevalecem notas de casca de laranja, anis e azeitona.
Produzida pelo alambique mais antigo em atividade no Brasil, localizado em Coronel Xavier Chaves, esta cachaça é obra da família de descendentes de Tiradentes. Nando Chaves, o atual produtor, segue também os princípios da Escola do Fermento Caipira, utilizando fubá de milho e leveduras selvagens no processo de fermentação. Ele já está transmitindo seus conhecimentos e a tradição da produção artesanal para seus filhos, João e Francisco, garantindo que a excelência da Cachaça Século XVIII Azul perdure por gerações.
A nossa cachaça não tem vergonha de ser cachaça!
Nando Chaves

A cachaça Reserva do Nosco Prata destaca-se no mercado por sua pureza e integridade, não sendo diluída com água após a destilação. Essa abordagem resulta em uma cachaça com uma experiência sensorial intensa, permitindo a apreciação plena dos aromas primários.
No nariz, destaque para os aromas fermentados, frutado, mineral e adocicados. Por não ser diluída a cachaça tem corpo elevado e retrogosto duradouro. As características sensoriais fazem da versão Prata da Reserva do Nosco estar entre as mais bem avaliadas na categoria, recebendo prêmios no Brasil e no exterior.
Criada por Marcelo Nordskog em 2007, após deixar uma carreira no mercado financeiro, a cachaça é produzida na histórica fazenda Valparaíso, em Engenheiro Passos, RJ. A fazenda, adquirida por seu avô em 1916, agora serve como berço desta cachaça artesanal, que homenageia seu avô, carinhosamente chamado de seu Nosco. Marcelo valoriza a tradição, utilizando cana-de-açúcar cultivada localmente e fermentos naturais, sem aditivos químicos. Com uma produção anual limitada a 10 mil litros, a Reserva do Nosco Prata oferece uma experiência exclusiva e autêntica aos apreciadores de cachaça.

A cachaça 1000 Montes Bruta, da Destom, é um exemplo notável da Escola do Coração Bruto. Fundada em 2014 por Sandro Moraes e Pablo Melgaço em Faria Lemos, na Zona da Mata mineira, a destilaria combina sustentabilidade e inovação sem abrir mão das técnicas tradicionais. A produção integra farelo de soja, farelo de arroz, fubá e sais minerais na fermentação por leveduras autóctones, refletindo também a tradição da Escola do Fermento Caipira.
Armazenada em inox por 6 meses, a 1000 Montes Bruta é incolor, com rosário e lágrimas lentos, indicando alta viscosidade. Pouco diluída, apresenta corpo robusto e percepção alcoólica intensa, mas equilibrada. Nos aromas, destaca-se a cana fresca, rapadura e hortelã. Na boca, é intensa, com doce da cana e frescor marcante. O retrogosto é de moderado a duradouro, prolongando a experiência.

Destilada em um equipamento único desenvolvido por Natanael Bonicontro, um hibrido entre coluna e alambique, a Companheira 48% é se destaca pela sua pureza no processo de destilação, se sendo a cachaça de aroma mais leve desta seleção. Seu destilador inovador realça as qualidades intrínsecas da bebida, resultando em uma aguardente limpa, de aromas vegetais, lácteos e leve fermentado.
Após a destilação, a cachaça é armazenada em dornas de inox de 9 mil litros, um processo que assegura a manutenção de suas características originais sem a adição de sabores externos.
A Companheira revelou-se para o mercado com suas premiadas cachaças amadeiradas, como a Extra-Premium, Dueto e Gatinha. Embora essas versões sejam conhecidas por seus sabores complexos e envelhecimento em madeira, a Companheira 48% é didática para entendermos a base com que os produtores de Jandaia do Sul trabalham, assim como a personalidade única trazida pelo equipamento de destilação de Natanael.
Os produtores da cachaça raiz têm desempenhado um papel crucial na divulgação desse estilo. Eles comunicam a complexidade e a riqueza da cachaça, ajudando os consumidores a entenderem a diversidade e a profundidade desse destilado.
Assim como os produtores de gin diferenciam seus produtos em categorias como London Dry, Old Tom, Contemporâneo, entre outros estilos, os produtores de cachaça raiz também criam uma identidade clara para suas cachaças. Isso facilita a compreensão do mercado e educa o consumidor sobre as diferentes propostas de produção.
A Escola do Coração Bruto representa um retorno às raízes da produção de cachaça, valorizando a pureza e essência do destilado de cana. Produtores como Sanhaçu, Magnífica, Século XVIII, Reserva do Nosco, 1000 Montes, entre outros, são exemplos dessa filosofia, oferecendo cachaças que são verdadeiras expressões da cana-de-açúcar.
Para que a cachaça alcance seu merecido reconhecimento, é fundamental que os produtores adotem diversas escolas de produção, refletindo a riqueza e a variedade dessa bebida única. Comunicar de maneira clara a diversidade da cachaça permite atender a um consumidor cada vez mais consciente e exigente, que valoriza a origem, a identidade e a inspiração dos produtos que consome. Esses valores, intrinsecamente ligados ao método de produção da cachaça de alambique, são essenciais para construir uma conexão autêntica e profunda com o público, elevando a cachaça a um novo patamar de apreciação e respeito.
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