Jeceaba aposta na madeira e na memória: o alambique mineiro lança La Dorée e Raiz das Veredas

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O menor alambique da Estrada Real lança dois opostos: a La Dorée, cinco anos de jequitibá-rosa finalizado em carvalho francês, e a Raiz das Veredas, aguardente de cana a 51%.

Um alambique pequeno o bastante para ousar

Nascido em 2003 no pequeno município que lhe empresta o nome — a 124 quilômetros de Belo Horizonte, no traçado da Estrada Real e no coração do Campo das Vertentes —, o alambique da Jeceaba é um dos menores do país, com uma produção que orbita os 9 mil litros por ano. O lema do sócio-fundador Roger Sejas, advogado que virou cachaceiro, resume a filosofia: “nunca quisemos ser os maiores, mas estar entre os melhores”.

Essa escala pequena é, na prática, a maior liberdade criativa da marca. A Jeceaba trabalha sobre uma base sólida e reconhecível — fermentação espontânea da Escola Caipira, com pé-de-cuba e leveduras do bioma local, cana do canavial próprio de seis hectares e destilação em alambique de cobre de coluna capelo, o clássico “chapéu de padre” que aproxima a cachaça jovem do passado do destilado brasileiro. Sobre esse alicerce, o alambique se permite experimentar: micro-oxigenação em dornas de inox, carvalho de primeiro uso em micro lotes — como nas Jeceaba Moderna e Jeceaba Independente — e, mais recentemente, o universo dos prontos para beber (os RTD – Ready To Drink). ]

A identidade, porém, sempre voltou a uma madeira muito brasileira: o jequitibá-rosa, que inaugurou a linha há vinte anos na Jeceaba Jequitibá e segue sendo a assinatura da casa, presente também na Jeceaba Premium. Quem quiser conhecer a história completa do alambique pode lê-la neste perfil.

É nesse espírito de experimentação ancorada na tradição que chegam os dois novos lançamentos. Eles não poderiam ser mais diferentes entre si — e essa polaridade é justamente o ponto.

La Dorée: o jequitibá levado ao carvalho francês

La Dorée

A La Dorée (“A Dourada”) é a expressão mais ambiciosa já assinada pela Jeceaba no terreno do envelhecimento. São cinco anos de madeira em duas etapas: dois anos em jequitibá-rosa, a base premiada que define a marca, seguidos de três anos de finalização em barris novos de carvalho francês. Engarrafada a 41% em 750 ml, é uma cachaça pensada como peça de guarda e de ocasião, vestida por uma garrafa de inspiração art déco que traduz no vidro o brilho dourado do nome.

Conceitualmente, a aposta é corajosa. Levar o floral delicado do jequitibá — uma madeira nativa, de taninos suaves — para dentro de um carvalho francês de primeiro uso é colocar duas madeiras em diálogo, e o desafio técnico está exatamente em não deixar que a estrutura tânica e especiada do carvalho silencie a assinatura brasileira da casa. Quando esse equilíbrio se sustenta, o resultado é uma cachaça de dupla cidadania: raiz mineira, acabamento europeu.

A cor faz jus ao nome: dourada, de boa intensidade e brilho. No nariz, a abertura é adocicada, sem arestas e muito convidativa, evoluindo para mel e caramelo com um toque de baunilha; com o tempo na taça, surge ao fundo a flor branca do jequitibá-rosa. Na boca é muito suave e não repete o dulçor intenso do nariz — traz o caramelo na medida certa, casando com a picância de pimentas secas do carvalho francês. Retrogosto médio, de picância baixa.

Raiz das Veredas: o resgate da aguardente de cana

raiz das veredas

Se a La Dorée olha para o futuro do envelhecimento, a Raiz das Veredas olha para trás — e assume isso no próprio nome de categoria. Não é uma cachaça: é uma aguardente de cana, engarrafada a 51% em 600 ml. A distinção é técnica e proposital. A cachaça, pelo PIQ, vai de 38% a 48%; ao posicionar o produto acima desse teto, a Jeceaba escapa deliberadamente da definição legal de cachaça para resgatar o termo histórico da aguardente, a bebida que abriu o caminho do destilado nacional. É um gesto de memória transformado em rótulo, reforçado por uma estética retrô.

A aguardente fica entre seis meses a um ano de descanso em inox, sem madeira — e por isso entrega a cana sem intermediários. A escolha pelos 51% é a parte mais ousada e a que mais exige do consumidor: é uma graduação que precisa ser explicada e contextualizada, sob o risco de assustar quem espera a suavidade de uma cachaça branca convencional. A própria marca aposta que a baixa acidez é o que torna essa potência palatável.

No copo, apresenta-se límpida e de lágrimas lentas, formando um rosário intenso — o que se espera de um destilado dessa graduação. No nariz, predominam aromas primários que reforçam a cana-de-açúcar fresca, com um doce amanteigado agradável; curiosamente, o álcool se mostra mais contido do que os 51% fariam supor. Na boca o quadro se inverte: o álcool aparece com tudo, mas sem agredir — sinal da acidez baixa. A intensidade alcoólica acompanha o dulçor no início de boca e cede a uma sensação de secura no final. É complexa, com fruta branca e cítricos de laranja, e um retrogosto de médio a intenso que me traz de volta a memória das jabuticabeiras que cercam o alambique de Jeceaba.

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