Ana Paula Palazi

Matriarca: estabelecendo um legado para a cachaça baiana

  • Publicado 4 semanas atrás

No extremo sul da Bahia, a Cachaça Matriarca é um farol de novidades, com foco nos biomas brasileiros, investindo em madeiras nacionais para o envelhecimento de cachaça

Houve um tempo, não muito longe, em que Caravelas e Medeiros Neto, cidades do extremo sul da Bahia, foram conhecidas por sua intensa produção de cana de açúcar. A expansão do cultivo mudou a região e motivou um fazendeiro a diversificar os investimentos, instalando um alambique na propriedade. Nos anos de 1990, nasceu  a Cachaça Matriarca.

O que começou despretensiosamente com uma moenda movida à tração animal, se transformou em um dos alambiques mais dinâmicos do sul da Bahia. Uma rosa dos ventos das cachaças baianas, apontando a direção em travessias modernas da indústria cachaceira. O espírito arrojado e pioneiro da família Matriarca rendeu (e rende até hoje) bebidas envelhecidas em madeiras inusitadas, com um propósito especial que preza pela brasilidade.

O que não mudou, três décadas depois, foram os fortes laços familiares ligados à produção da Cachaça Matriarca. Desde a marca, inspirada em Aracy Alves Pinto, matriarca da família. Nome escolhido pelo fundador da empresa, Adalberto Alves Pinto, e por sua sobrinha, Sabrina Sedlmayer, que é a primeira neta de Aracy; até o dia a dia da empresa, tocada, atualmente, com suporte da esposa de Beto Pinto (como o produtor é conhecido localmente), Maria Eliane (Lana) Pinto, das duas filhas, Milla de Andrade Pinto e Maíra de Andrade Pinto, e do genro, Lucas Di Loreto Kerr Maia.

Estabelecida, a Matriarca quer atrair, agora, o turismo para a região do extremo sul baiano, compreendida por uma parte interiorana de Caravelas, Medeiros Neto e Lajedão. Enquanto prepara novos produtos inspirados nos biomas brasileiros.

Ciclos e a produção na fazenda Cio da Terra

A natureza é feita de ciclos. E assim também a família Matriarca trabalha a terra na Fazenda Cio da Terra, onde o destilado é produzido. A cachaça é uma parte, dentro de um ecossistema muito maior, que envolve, entre outras atividades, a produção agrícola, suína, de gado e leite. Mas há algo na cachaça que atrai a família para o negócio do alambique.

“Aqui a vaca produz o esterco, que aduba o solo, que produz a cana para a cachaça. O bagaço da cana volta para o campo e as leveduras da fermentação, ricas em proteína, voltam para alimentar o gado, reiniciando o ciclo”, comenta o fundador da Matriarca sobre algumas das técnicas integradas para o uso racional e eficiente dos recursos.

Para Lucas, genro do produtor, que atua como diretor de produção e comercial da Matriarca, conhecer a fundo o processo produtivo da cachaça mudou seu olhar sobre a bebida. Em 2017, depois de uma visita dele e da esposa à região de Salinas, ele assumiu a direção de produção na Matriarca, e trouxe o consultor Leandro Marelli para ajudar no processo.

Com investimentos na fábrica e uma repaginada na identidade visual da marca – fruto da criatividade de Milla, atual diretora de eventos e identidade visual da marca, além do trabalho da irmã Maíra, que atua como diretora financeira, marketing e produção de alimentos, no desenvolvimento de drinks exclusivos e produção de outros produtos, como embutidos -, a Matriarca entrou em uma nova fase. Bebericando do que há de mais novo, para consolidar uma nova tradição de família.

O segredo da cachaça Matriarca

Olhando de cima, o alambique da Matriarca fica no meio do canavial. Mais especificamente 160 hectares de plantação de cana. Proximidade que garante a agilidade nos processos. O modo de fazer cachaça pode até parecer igual. Corte de cana sem fogo, controle rígido na limpeza, moagem, filtragem e padronização do caldo. O fermento selecionado dá início ao pé de cuba. Uma forcinha da tecnologia para despertar as leveduras locais, que logo tomam conta da fermentação.

Com uma produção anual em torno de 30 a 45 mil litros, a renovação do fermento é feita pelo menos três vezes durante a safra. Prática que ajuda a regular a acidez, um indicador muito importante para os produtores que prezam pela qualidade. “Temos ainda um corte de cauda bem alto”, explica Lucas sobre o processo de separação do coração da cachaça na destilação. “Perdemos em quantidade, mas ganhamos em qualidade”, justifica.

Aliado a todo cuidado na produção, a Matriarca pode se orgulhar de ser uma das poucas empresas produtoras de cachaça que possuem sua própria tanoaria. Os cuidados com os barris ficam nas mãos de Gildásio, tanoeiro da marca, que nasceu e trabalhou em Salinas (olha ela aí de novo), terra das cachaças em bálsamo, com muita história para contar.

“Ter uma fábrica de barris dentro da fazenda, permite que possamos fazer experimentos e brincar com as misturas, trazendo sempre novidades”,

afirma Lucas, sobre os benefícios de ter sua própria tanoaria.

O pioneirismo usado a jaqueira para envelhecer cachaça

No universo da produção de cachaça, o processo de envelhecimento é uma arte tão especial quanto a fermentação e a destilação. No entanto, para o visionário Beto Pinto, da Cachaça Matriarca, inovar é natural. E não é preciso ir muito longe para isso. A busca por novos sabores e aromas levou a uma abordagem comum, embora nem sempre usual entre os produtores: olhar para o seu próprio quintal.

Na busca por madeiras mais jovens e precoces, a Matriarca inovou ao ser pioneira na utilização da madeira de jaqueira para o envelhecimento de cachaça. Com um tanoeiro dedicado exclusivamente à sua produção, a Matriarca encontrou nas matas da região o material para criar esses barris únicos, conferindo à sua cachaça uma identidade autêntica e inspirando tendências.

A Cachaça Matriarca Jaqueira foi lançada no início dos anos 2000, e segue sendo, até hoje, um dos principais produtos do alambique, juntamente com a Cachaça Matriarca Blend 4 Madeiras Brasileiras, que leva na mistura a cachaça armazenada em jaqueira. Com a sustentabilidade na vanguarda do trabalho, a família Matriarca já pensa na próxima geração de cachaças. Por isso, reflorestou parte da fazenda com novas mudas, considerando reduzir os impactos da produção, sem perder de vista a madeira que a distingue.

“As madeiras para a tanoaria têm um limite, por isso, estamos sempre preocupados em buscar alternativas. Uma delas foi investir numa árvore que você possa acompanhar, desde o plantio até a colheita”, observa Beto.

Cachaça Matriarca e os biomas brasileiros

Se a madeira pode ser a chave para contar a história de uma cachaça, na Matriarca, ela cria uma coleção de experiências arrojadas. Esqueça os tradicionais barris de carvalho. Na busca por novos sabores e aromas, a Cachaça Matriarca mergulhou nos biomas do Brasil.

“Claro, que o carvalho tem o seu lugar”, pontua Lucas, ao mesmo tempo em que revela estar iniciando um trabalho com a madeira importada. Mas é com madeiras nativas que a Matriarca tem construído história e um legado entre as cachaças baianas e de todo o país. Além da jaqueira, espécie exótica originária da Ásia, a Matriarca trabalha com barris de jequitibá-rosa, bálsamo, ipê, castanheira e amburana. Mas as experiências vão além.

A Cachaça Matriarca Ouro Bálsamo, por exemplo, reúne madeiras de dois biomas diferentes: da Mata Atlântica e do Cerrado. Dentre outros produtos de destaque, a Cachaça Matriarca Blend 4 Madeiras Brasileiras propõe uma mistura mais ousada, de jaqueira e bálsamo com amburana e louro canela.

Uma nova incursão local trouxe, ainda, em 2022, em versão limitada, o lançamento de uma cachaça que fica armazenada em madeira de goiabeira, numa variedade silvestre da região. A Cachaça Matriarca Blend Tropical é envelhecida em barris de goiabeira, jequitibá-rosa e leva também louro canela.

Não é uma jogada de marketing; é um posicionamento da marca. E podemos esperar mais novidades de onde saíram essas.

A Matriarca prepara uma soleira brasileira com sete madeiras diferentes: freijó, jequitibá-rosa, jaqueira, bálsamo, ipê-amarelo, castanheira e amburana. A ampliação do portfólio vai mais além: “Devemos iniciar a produção de rum neste ano”, diz Lucas. De olho nessa diversidade, encontramos bons motivos para fazer uma visita à Medeiro Neto, na fazenda Cio da Terra.

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