Como um apreciador e estudioso da cachaça, tive a oportunidade de vivenciar de perto o terroir e os inconfundíveis aromas dos alambiques de Paraty, cidade que chamamos de lar em 2020. A cidade foi inspiração para criarmos o Mapa da Cachaça porque representa muitos dos aspectos que fazem do nosso destilado uma bebida fascinante. Paraty, assim como a cachaça, é cultura, gastronomia, tradição, história colonial e moderna, turismo e diversidade de aromas e sabores.

Paraty, com suas características climáticas peculiares, de elevada pluviosidade e climas que oscilam entre o calor tropical e a frescura proporcionada pela proximidade com o mar, não é somente um encanto para os olhos e para a alma, mas também para o paladar. O Mapa da Cachaça já havia, em momentos anteriores, destacado a singularidade da Indicação Geográfica daquela região, uma honraria que acaba de ser elevada ao patamar de Denominação de Origem (DO) pelo INPI, fruto do empenho e da dedicação incansável dos produtores locais.
A Denominação de Origem (DO) é um selo de qualidade e autenticidade que visa proteger e valorizar produtos típicos de uma região, garantindo que suas características únicas estejam intrinsecamente ligadas ao seu local de produção (podemos chamar de terroir, ou como gosto de dizer: território da cachaça).

No contexto da cachaça, uma bebida emblemática do Brasil, a Denominação de Origem indica que determinada cachaça possui qualidades e características que só podem ser atribuídas ao seu meio geográfico específico, incluindo fatores naturais como solo, clima e hidrografia, bem como fatores humanos como métodos de produção e tradição, como tipo de levedura, o uso de substratos, as madeiras tradicionais usadas para armazenamento ou envelhecimento da cachaça. Essa certificação assegura ao consumidor que a cachaça foi produzida conforme práticas consagradas e reconhecidas da região, agregando valor e promovendo a cultura e a identidade local.


É essa combinação do clima, da topografia diversificada, da Serra do Mar e da Mata Atlântica, da abundante chuva distribuída uniformemente ao longo do ano, e dos métodos ancestrais de cultivo e produção que contribuem para as características sensoriais únicas que a cachaça de Paraty apresenta. A alta qualidade da bebida destilada que brota dessa terra é testemunhada nos sabores doces de cana, dos aromas frutados, da forte presença de bagaço e melaço, e sensação quente e refrescante que cada gole provoca.
Se Salinas, outra região com potencial de conquistar sua Denominação de Origem, tem anis, erva doce, cravo por conta do envelhecimento em bálsamo, Paraty é a expressão da matéria-prima, com doce de cana e frutado. São expressões distintas de diferentes terroirs da cachaça
Felipe Jannuzzi
Como alguém que já percorreu esses alambiques, mapeando as técnicas de produção de cada destilarias e provando a aguardente direto da fonte, posso dizer que cada gota reflete a alma e o espírito de Paraty. A APACAP, que há 16 anos havia alcançado a Indicação de Procedência, agora celebra um reconhecimento ainda mais especial. Esta não é apenas uma vitória dos produtores, mas também da história, da cultura e das práticas ancestrais que são preservadas com tanto carinho naquela região.
“O Brasil produz cachaça no país inteiro, de Norte a Sul, e cada região tem sua particularidade, suas características e diferenças sensoriais próprias do território. Quanto mais regiões forem reconhecidas com sua Indicação Geográfica isso só vai crescer e favorecer o setor.”
Lúcio Gama Freire, produtor cachaça Pedra Branca

Aos produtores de Paraty, parabenizo a jornada de aprendizado e colaboração que levou a este sucesso, enfatizando a importância do apoio do Sebrae e das universidades fluminenses no mapeamento do solo e na identificação dos padrões sensoriais da cachaça de Paraty. E eu, como alguém que já viu de perto o esforço e a paixão colocados em cada fase da produção, posso apenas confirmar que a Denominação de Origem é mais do que um selo: é o reconhecimento de um legado que transborda em cada garrafa dessa nobre bebida brasileira e um exemplo para outras potenciais DO da cachaça pelo Brasil.
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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
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