Retrato de dois Mestres da Adega

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Dois mestres de adega, dois caminhos distintos: a arte intuitiva e a precisão científica que revelam a versatilidade da cachaça.

O artista

Adwalter tinha tudo para transformar a Santa Terezinha em apenas mais uma marca entre tantas que fazem da cachaça um dos destilados mais consumidos do mundo. Mais volume, equipes numerosas, maquinário industrial de engarrafamento, escala.

Mas quantidade nunca foi o que ele buscou. Acima de tudo, Adwalter sempre escolheu a qualidade — e, mais do que isso, uma forma de se comunicar.

Rodeado por artistas, músicos, escritores e gente da gastronomia, ele queria fazer parte dessa mesma banda criativa. E fez. Transformou a Santa Terezinha na sua forma de expressão: a cana-de-açúcar local como matéria-prima sensível; a fermentação selvagem e os barris de madeira como seu canvas em branco.

Cada escolha, cada processo, cada tempo de descanso passou a compor uma obra. Uma verdadeira sinfonia de cores, aromas e sabores.

O maestro da cachaça levou essa visão para além do alambique. Em Vitória, no Espírito Santo, transformou seu empório em um espaço de trocas, encontros e escuta — um lugar que toca também a alma de quem entende que cachaça é muito mais do que bebida. É cultura. É identidade. É linguagem.

Talvez um de seus maiores méritos tenha sido conquistar algo raro: fazer com que seu filho, Igor, desse continuidade a essa obra. Não como repetição, mas como evolução. Um talento que corre no DNA da família Menegatti e que segue se manifestando em novas leituras, novos acordes, novas interpretações.

dois mestres de adega
Adwalter Menegatti, Leandro Marelli e Felipe Jannuzzi

O cientista

Leandro Marelli constrói como cientista.

Não por acaso, nosso primeiro encontro não foi no alambique, mas na academia. Foi na Universidade de São Paulo, na ESALQ, em Piracicaba, quando Leandro estava nos momentos finais de seu doutorado. Olhando para trás, faz todo sentido.

A evolução de Leandro é visível em seus blends premiados, especialmente nas marcas Matriarca e Princesa Isabel. Seu laboratório é o alambique; suas equações, as dornas, os barris e o tempo.

Mas não se trata de ciência fria. Sua formação acadêmica dialoga com a prática da fermentação e do envelhecimento, com a escuta atenta da madeira e com o compromisso de entregar um resultado que represente com fidelidade as marcas com as quais trabalha.

O uso de leveduras selecionadas, a retomada do alambique Alegria e o cuidado rigoroso com cortes e envelhecimento revelam um mestre de adega que não deixa espaço para improvisos. Em suas cachaças, precisão é sinônimo de identidade.

Se há uma palavra que define seus rótulos, é equilíbrio. São composições onde não há arestas. Onde cada nota aromática parece estar exatamente onde deveria estar. Onde a técnica não engessa, mas potencializa.

Dois mestres da adega. Dois caminhos distintos. Um mais intuitivo, outro mais analítico.

E é justamente essa dualidade que revela a grandeza da cachaça: a capacidade de transformar em líquido as certezas de cada produtor.

E eu… no canto da foto… apenas aguardo qual será a próxima invenção dessas grandes personalidades da cachaça.

Foto: Cecília Helena

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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.