Os 10 lançamentos de cachaça que mais se destacaram em 2025

  • Publicado 22 horas atrás

Aqui vai uma seleção pessoal dos lançamentos de cachaça que mais me chamaram a atenção em 2025. Ao longo do último ano, avaliei às cegas centenas de cachaças de alta qualidade, o que tornou o recorte ainda mais necessário. A proposta aqui não é eleger “as melhores”, nem revisar rótulos já conhecidos em novas safras, mas destacar apenas cachaças inéditas, lançadas pela primeira vez no mercado.

Casa Bucco Cerejeira Européia – RS

Casa Bucco Cerejeira Europeia Os 10 lançamentos de cachaça que mais se destacaram em 2025

A Casa Bucco é hoje a única cachaçaria a utilizar cerejeira europeia (Prunus avium) para o envelhecimento de cachaça — madeira distinta da amburana (Amburana cearensis e Amburana acreana), árvore brasileira popularmente também chamada de “cerejeira”. Essa escolha já coloca o rótulo como uma das experiências de destaque em 2025. No visual, a madeira imprime cor dourada intensa. No aroma, a cerejeira se manifesta de forma elegante, com perfil floral e frutado, acompanhado de dulçor delicado — um registro de fruta seca e menos doce do que encontramos geralmente no carvalho. Na boca, o ataque inicial é macio, com baixa adstringência, trazendo notas de baunilha, castanhas como amêndoa e marzipã, mas a cachaça cresce com uma picância que finaliza na boca com especiarias, como canela. O retrogosto é limpo e médio, reforçando o caráter verde, frutado e doce que torna essa madeira tão singular na cachaça.

Chama atenção também como a cachaça gaúcha vem consolidando uma identidade própria, com cor, aroma e sabor que comunicam claramente o Rio Grande do Sul. Isso aparece no design das garrafas, no teor alcoólico mais ameno e, sobretudo, no domínio do uso das madeiras. Nesse contexto, o trabalho de Moacir Menegotto se impõe com naturalidade, colocando seu nome entre os grandes mestres de adega do país e ajudando a definir uma escola gaúcha dentro do mercado da cachaça.

Gogô da Ema Carvalho Francês – AL

gogó da ema carvalho 4 anos

Apesar de já conhecer Alagoas, ainda não tive a oportunidade de visitar seus alambiques — uma lacuna considerável para quem busca mapear as principais cachaças do Brasil. Entre as destilarias do estado, duas eu acompanho há anos pela consistência e qualidade: Gogó da Ema e Caraçuípe. Estou me organizando para conhecê-las de perto no segundo semestre de 2026. Enquanto isso, um dos grandes destaques de 2025 veio justamente da Gogó da Ema.

Há algum tempo converso com Henrique Tenório sobre a abordagem técnica pouco comum que adotou na fermentação, com o uso de três leveduras selecionadas da Lallemand (CN, RM e SR) — algo inédito no mercado da cachaça. Em 2025, no entanto, o protagonismo ficou com a versão envelhecida por quatro anos em carvalho francês, destilada em alambique de cobre com fogo indireto e produzida a partir dessa base branca fermentanda com o blend de leveduras.

A Gogó da Ema Carvalho Francês tem cor dourado escuro. No nariz, surgem caramelo e castanhas, com leve presença alcoólica. Na boca, corpo médio, picância equilibrada e sabores de caramelo, cardamomo e frutas secas. O retrogosto é médio, doce e levemente especiado. Pelo conjunto técnico e sensorial que entrega, trata-se de um rótulo com excelente relação entre preço e experiência entregue.

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Nobre Ocean – PB

Ocean Nobre Paraiba Os 10 lançamentos de cachaça que mais se destacaram em 2025

Há muitos anos acompanho o trabalho de Murilo Coelho na Paraíba, um mestre de adega que vem se consolidando entre os mais completos do país ao lado de Adwalter Menegatti, Nelson Duarte, Leandro Marelli e Armando del Bianco. Sua habilidade em criar cachaças especiais, tanto com madeiras brasileiras quanto com carvalho, aparece de forma exemplar em rótulos como a Nobre Sunset — eleita melhor extra-premium em carvalho no Guia Mapa da Cachaça — e revela um profissional atento à técnica, ao tempo e ao detalhe concentual de cada cachaça – algo raro no mercado.

Outro grande destaque de 2025 foi a Nobre Ocean, um blend de amburana e bálsamo que confirma o talento de Murilo em lidar com madeiras difíceis, capazes de brigar por espaço na combinação. Nessa luta, quem venceu foi o bálsamo, mas não por uma imposição exagerada. De cor dourada, a Ocean se abre no nariz com o frescor e as especiarias do bálsamo — leve erva-doce, fruta verde e notas minerais que justificam o nome (ocean, oceano em inglês) e sugerem uma curiosa salinidade. Na boca, é leve, de corpo delicado, alta bebabilidade e retrogosto curto, com leve picância e baixo amargor, equilibrados pelo dulçor da amburana – incorporada justamente para equilibrar o amargor do bálsamo. O mérito está justamente em criar uma cachaça tranquila, saborosa e de alta bebabilidade, mesmo partindo de duas madeiras intensas — uma qualidade sensorial que só a cachaça pode trazer.

Trabalhando sempre com pequenos lotes, Murilo mantém uma produção versátil e consistente, com lançamentos regulares que ampliam um portfólio hoje já diverso, que inclui também aguardentes de cana e rum.

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Princesa Isabel Porter – ES

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A Princesa Isabel Porter nasce do encontro entre dois universos que vêm dialogando cada vez mais: a cachaça e a cerveja artesanal. A cachaça passou dois anos em inox, dois anos em carvalho americano e foi finalizada por um ano em barril de amburana que antes maturou a Baltic Porter da Cervejaria Três Santas — cerveja potente, encorpada, uma sobremesa… e sem dúvida, a melhor cerveja que bebi em 2024, premiada inclusive com medalha de ouro no CBC 2024.

Eu tive a oportunidade de degustar essa nova cachaça da Princesa Isabel na Expocachaça 2025 no nosso estande do Mapa da Cachaça – e rapidamente a cachaça já chamou a atenção de quem passava para nos visitar – o design, como na maioria dos rótulos da destilaria capixaba é primoroso, mas o grande destaque vai para o sensorial diferenciado. O resultado é uma Single Barrel de edição limitada. De cor acobreada e lágrimas lentas, a Princesa Isabel Porter traz baunilha, coco e canela típicos da amburana, somados a um fundinho sutil de malte tostado que adiciona profundidade e personalidade. Na boca, a percepção da cerveja é clara, algo que só senti ao degustar a Famigerada Imburana, primeira cachaça a explorar o intercâmbio entre cerveja e cachaça a partir do envelhecimento comum na madeira brasileira.

Os projetos como da Famigerada e Princesa Isabel ajudam a explicar por que a cachaça vem se destacando como uma das categorias de destilados mais prolíficas do mundo – um verdadeiro deleite para os apreciadores de bebidas destiladas. Por aqui, vemos produtores artesanais, menos engessados pela burocracia da grande indústria, com mais velocidade para testar ideias, lançar edições limitadas e dialogar com os consumidores. Esse dinamismo aproxima cada vez mais o mercado da cachaça do universo da cerveja artesanal, onde os lançamentos são parte fundamental do engajamento e da construção de comunidade — um contraste claro com o ritmo tradicionalmente mais lento dos destilados em geral.

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Nhá Dita Carvalho Francês – SP

Nhá Dita The Ember Colletion

A Nhá Dita trouxem em 2025 um dos lançamentos mais conceituais do ano ao apresentar a Ember Collection, uma linha pensada desde a origem para harmonizar com charutos. A série é composta pelas versões Amburana, Carvalho Francês e blend Carvalho Francês e Amburana. Das três versões, a que mais me agradou foi a envelhecida em carvalho francês, e é meu destaque na seleção.

De cor âmbar escura, bem bonita, já revela o amadeirado intenso: a cachaça envelheceu por três anos em barris tostados de carvalho francês de 225 litros. No nariz uma presença equilibrada e delicada entre dulçor, especiarias e notas tostadas: toffee, frutas secas, baunilha, castanhas caramelizadas, pimenta-preta e leve tostado (tabaco e coco). Na boca se mantem leve, delicada, equilibrada, propondo uma harmonização com um charuto de suave a média força (harmonizei com um Jamm MF). Uma experiência bem gostosa e completa, com retrogosto médio, que começa doce e termina dando uma leve secura na boca, trazendo uma percepção de chocolate amargo.

Nhá Dita The Ember Colletion

A inovação aparece também no rótulo. Cada garrafa recebe um rótulo feito com lâminas da mesma madeira dos barris em que a cachaça envelheceu, com impressão direta na madeira, corte a laser e variações naturais que tornam cada unidade única. O uso de rolha de vidro, a numeração individual e a tiragem limitada reforçam o caráter de coleção e me dão a certeza que essa cachaça paulista merece estar nessa seleção de destaque.

No entanto, com apenas 300 garrafas, não sei se o lote está disponível ainda.

Como bônus — e talvez uma das surpresas mais felizes do ano para apreciadores de café como eu — a Nhá Dita também acertou em cheio com o café especial maturado em barril de amburana. Os grãos absorvem delicadamente aromas da madeira que antes envelheceu cachaça, resultando em uma bebida elegante, aromática (me trouxe especiarias da amburana e chocolate amargo da torra) e sem qualquer traço alcoólico.

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Flor das Gerais – Reserva Porto D´Ouro – MG

garrafa da cachaça Flor das Gerais Reserva 10 Anos Porto D´Ouro

Flor das Gerais Porto D’Ouro 10 Anos apresenta um dourado escuro com reflexos acobreados e lágrimas lentas na taça, resultado de um envelhecimento longo e sequencial que começa em carvalho europeu ex-tequila (algo inédito) e termina em barris de vinho do Porto. No nariz, surgem aromas de doce de banana, caramelo e bala de café, acompanhados por notas terrosas, baunilha, pão de mel e, no fundo da taça, chá preto e tabaco. Na boca, a cachaça mostra outra camada: a doçura inicial dá lugar a uma sensação levemente metálica, com amargor discreto, seguida pelo retorno do caramelo e da baunilha, agora somados a notas de uva-passa (nota marcante do vinho português). O retrogosto é moderado, de baixa picância, com o amargor sutil da madeira se misturando ao dulçor residual do vinho do Porto.

Produzida em 2.500 garrafas numeradas, a Porto D’Ouro é um projeto autoral que só deverá ser repetido em 2035, algo que faz realmente do lançamento algo muito especial!

Não posso deixar de destacar o design da garrafa, que segue a linha do premiado rótulo da Flor das Gerais Dorna Única, eleito o terceiro mais bonito no Guia Mapa da Cachaça — um projeto visual coerente, elegante e já reconhecível. Com a Porto D’Ouro, fica claro que estamos diante da maturidade técnica da destilaria de Felixlândia e de uma aposta consistente em cachaças de longa guarda, pequenos lotes e identidade bem definida. Vale acompanhar de perto essa destilaria mineira, que vem construindo um portfólio cada vez mais sólido.

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Santo Grau Alvarinho – MG

Santo Grau Alvarinho Os 10 lançamentos de cachaça que mais se destacaram em 2025

Caramba! A primeira cachaça com passagem por madeira assinada por Nando Chaves, o mestre por trás das cachaças Século XVIII e das versões mineiras da Santo Grau. Sabendo que a “prata da casa” em Coronel Xavier Chaves sempre foram justamente as pratas — cachaças brancas complexas, intensas, moldadas pela Escola do Fermento Caipira — confesso que fiquei especialmente curioso com a Santo Grau Solera Alvarinho. Trata-se de uma cachaça envelhecida em sistema de soleira, em barris de 300 litros de carvalho que anteriormente armazenaram vinho da uva alvarinho, uma escolha que faz muito sentido considerando a parceria da Natique, dona da marca Santo Grau, com a Osborne, tradicional marca espanhola famosa por seus vinhos e brandies envelhecidos em soleira.

No visual, apresenta dourado brilhante e lágrimas moderadas. No nariz, o perfil é inicialmente fechado e discreto, mas se abre com o tempo na taça, revelando baunilha, notas vegetais e florais, milho-verde e fruta fresca. Mesmo com a madeira, é nítida a presença da base branca intensa, marca registrada da fermentação caipira conduzida por Nando e seus filhos no centenário alambique. Na boca, o conjunto se mostra ainda mais interessante: surgem erva-doce, pão torrado e caramelo, com boa integração entre destilado e madeira. O retrogosto é de duração média e complexo, trazendo fruta madura e uma picância bem dosada. Se a maestria de Nando segue incontestável nas cachaças brancas, essa incursão pelo carvalho se mostrou uma surpresa muito feliz!

Bag-in-Box da SôZé – SP

bag n box sozé

Entre os destaques de 2025, o lançamento da bag-in-box da SôZé merece atenção especial pela coerência com a proposta da marca paulista. Eleita como o produtor mais sustentável no Guia Mapa da Cachaça, a SôZé encontrou na embalagem um desdobramento natural do seu discurso ambiental, sem abrir mão de qualidade, rastreabilidade e posicionamento estratégico. Não se trata de “embalagem alternativa”, mas de uma solução pensada desde a origem para reduzir impacto ambiental e ampliar a presença da cachaça de alambique em novos mercados.

selo sustentabilidade Mapa da Cachaça 2025

A bag-in-box oferece vantagens claras: menor uso de material em comparação ao vidro, redução significativa de peso e emissões de poluentes no transporte, melhor aproveitamento logístico e menor risco de quebras. Do ponto de vista técnico, o sistema protege o líquido e promete não interferir com o perfil sensorial da bebida. É um formato funcional, eficiente e alinhado às práticas ESG que cada vez mais pesam nas decisões de compra do setor de hospitalidade.

Não por acaso, a bag-in-box da SôZé é um produto voltado principalmente ao mercado exterior e ao canal B2B, funcionando como matéria-prima qualificada para coquetelaria e serviço profissional, nunca como substituto da garrafa no varejo. Aqui, vidro e BIB não competem: se complementam. A garrafa segue como ferramenta de construção de marca; a bag-in-box, como instrumento de escala e sustentabilidade.

Yi-ecê-aba – MG

ye-ece-aba cachaça

O mestre de adega Roger Sejas vem se consolidando como um dos grandes nomes da nova geração. A sua Jeceaba Moderna ficou em segundo lugar na categoria Blend Envelhecido no Guia Mapa da Cachaça e no ano passado nos trouxe um trabalho consistente com a Yi-ecê-aba, um blend das madeiras jaqueira, bálsamo, amburana e jequitibá.

A Yi-ecê-aba apresenta um dourado vibrante, típico da jaqueira — uma madeira de origem asiática, mas plenamente adaptada ao Brasil. No nariz, surgem notas meladas e frutadas, com clara lembrança de cajuína, além de nuances abaunilhadas e um leve frescor mentolado, influências que dialogam com a amburana e o bálsamo do blend. Na boca, o perfil muda: o dulçor inicial cede espaço a notas condimentadas e vegetais, com frescor que lembra hortelã, leve amargor no final e um retrogosto crescente, marcado por canela e pimentas secas. O resultado é uma cachaça de alta bebabilidade, complexa sem ser pesada, que cresce em camadas.

Recomendo beber pura, mas é uma excelente oportunidade para bartenders exploraram a complexidade da cachaça na coquetalaria: com misturas complexas com frutas amarelas ou na simplicidade de misturar com água tônica para uma experiência única!

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Matriarca Porto – BA

Matriarca Porto

É cada vez mais comum cachaças finalizadas em barris que antes envelheceram outras bebidas, como Jerez, cerveja e vinho do porto – na minha seleção de destaques trouxe algumas que seguem esse perfil. Lançada no final do ano passado, a Matriarca Porto é um belíssimo exemplar de como usar o destilado brasileiro em sintonia com o vinho português.

A cachaça Matriarca Porto foi envelhecida por 3 anos e 6 meses em duas barricas de carvalho francês de 220 litros que antes abrigaram vinho do Porto. Desde 2024, quando soube que esse lote estava sendo desenvolvido na adega baiana, a expectativa pelo lançamento só cresceu — e a espera valeu a pena!

Visualmente, apresenta coloração rubi e lágrimas lentas. No nariz, o envelhecimento diferenciado aparece com clareza, trazendo o dulçor típico do Vinho do Porto, com notas de uva passa e café, além de baunilha e fruta madura. Das cachaças com essa proposta de envelhecimento, a Matriarca foi a que a mais me trouxe nitidamente as características do vinho português – e ganhou pontos por essa coerência sensorial, que não fica só no discurso e marketing, mas está clara na taça. Em boca, mostra boa presença alcoólica e amadeirada, com sabores de baunilha, uva passa e um final que remete ao chocolate. O retrogosto é longo e muito prazeroso. Funciona muito bem em harmonizações com castanhas, frutas secas — como figo — e queijos de maior intensidade — como gorgonzola.

A embalagem, inspirada nos azulejos portugueses, completa a experiência e reforça o caráter de presente para quem aprecia tanto cachaça quanto vinho do Porto.

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2025, um ano de grandes lançamentos para a cachaça!

A lista reúne rótulos que, cada um à sua maneira, ajudam a revelar a diversidade técnica, sensorial, comercial e criativa da cachaça hoje — seja pelo uso de madeiras, pelo desenho de blends, pela precisão de execução ou pela clareza de proposta da marca. São lançamentos que dizem algo sobre o momento do destilado no Brasil e sobre até onde produtores de diferentes regiões estão dispostos a ir quando o assunto é qualidade e inovação.

Animado com as cachaças que 2026 irá nos trazer!

Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.