Melhor cachaça de Salinas? Antes, defina “ser de Salinas”

  • Publicado 7 meses atrás

Definir critérios é fundamental para proteger a Escola de Anísio Santiago e manter viva a identidade da cachaça de Salinas e região.

O que é uma cachaça de Salinas?

Uma das maiores riquezas de uma marca de cachaça é o pertencimento. Não é só geografia: é clima, solo, cultura e uma forma própria de pensar a produção. Eu chamo essa forma de pensar de Escola da Cachaça — tema que aprofundo no Guia Mapa da Cachaça. Entre as escolas mais icônicas está a de Anísio Santiago, que, com as cachaças Havana e Anísio Santiago, projetou Salinas e seu entorno como polo de referência.

O “método Anísio” tem traços inconfundíveis: cachaças potentes (a Havana com 47% vol.), fubá de milho na fermentação por leveduras selvagens, alambique de cobre aquecidos por fogo direto ou indireto — os mais antigos no formato chapéu-de-padre — e dornas de bálsamo exauridas por longos anos maturando cachaça (Havana, 12 anos). O resultado salta à taça: rosário intenso, lágrimas densas e longas, um dourado-esverdeado próprio; no nariz, frutas amarelas, especiarias, anis, cravo, erva-doce. É uma identidade que cresce no copo e marca na memória.

Esse estilo irradiou para vizinhos — Havaninha, Tabúa, Canarinha, Salinas, Salineira, Indaiazinha, Encantos da Marquesa — uns mais diretos na referência, outros em releituras. E o estilo foi para além do Norte de Minas Gerais: lembro de uma conversa que tive com Sr. Rômulo Cembranelli, de São Luiz do Paraitinga, em São Paulo, que diz ter se inspirado em Anísio para lançar a sua Mato Dentro Bálsamo. É assim que, ao longo das décadas, se criam mitos, ícones, referências.

Reconhecer para valorizar

Agora, os números pedem reflexão: de acordo com o Anuário da Cachaça de 2025 são 292 cachaças em Salinas, 11,7% das cachaças registradas em Minas, produzidos por 20 estabelecimentos14,6 cachaças por produtor, em média. Poucos produtores assinando muitos rótulos, muitos por terceirização. Isso não é, por si, um problema; o alerta é outro: estamos diluindo o que seria um perfil autenticamente salinense.

Em julho, estive no Festival da Cachaça de Salinas e participei de um ranking para eleger “a melhor cachaça de Salinas”. Mas para julgar com justiça, é preciso antes combinar entre os jurados: o que significa “ser uma cachaça de Salinas”?

No concurso, muitas das amostras avaliadas eram “genéricas”, sem traços do terroir local — poderiam vir de qualquer lugar do Brasil. Num concurso que busca a melhor cachaça da região, essa ausência de identidade precisa contar contra. O risco é criar uma metodologia de avaliação que no final do dia pode justamente desvalorizar a cachaça raiz e premiar um perfil sem identidade, mais genérico, um “mais do mesmo”. Ao premiar essas cachaças sem representatividade local, estamos ajudando a enterrar o que a região tem de mais valioso: a sua tradição.

Hoje convivem oportunistas — que surfam a onda da “Capital da Cachaça” e provavelmente não durarão — e projetos sérios. Caso de exemplo positivo é a Minas D’Ouro, do Melissandro Giovanni: mesmo terceirizando, expressa enraizamento e compromisso com a cachaça local, trabalho que se extende ao representar outras marcas no seu e-commerce e loja no centro de Salinas; o seu blend 6 madeiras foi muito bem pontuado no ranking. Inovar é desejável — blends, madeiras, técnicas — desde que antes se reconheça e valorize a referência que foi base de tudo. Sem esse norte, ao longo dos próximos anos, o risco é perder essa tão desejada identidade local.

Qual o futuro da cachaça de Salinas?

São os detalhes que me mantêm otimista:

A gigante Salinas, da família Medrado, estampa “Tradicional” no rótulo da versão bálsamo — porque, em um portfólio extenso, reconhece que é essa a expressão que preserva a receita local.

salinas salinas 7 Melhor cachaça de Salinas? Antes, defina “ser de Salinas”
A cachaça Salinas reconhece no rótulo que a sua versão tradicional passa por tonéis de bálsamo

A Salineira, com gestão das irmãs Leila e Danielle Sarmento, tem apoio na produção do mestre alambiqueiro Arlindo Santiago, sobrinho-neto de Anísio, mantendo viva a linhagem que moldou o estilo de Salinas.

Leila e Danielle Sarmento, produtoras da cachaça Salineira
Leila e Danielle Sarmento, produtoras da cachaça Salineira
Arlindo Santiago Melhor cachaça de Salinas? Antes, defina “ser de Salinas”
Arlindo Santiago, mestre alambiqueiro da Salineira

A Havana, que sempre teve um ar enigmático, hoje abraça o turismo etílico: abriu as portas da icônica destilaria para educar os curiosos sobre a referência que moldou toda a região. Talvez essa seja a única diferença de postura em relação ao reservado Anísio — de resto, seguem à risca sua escola.

salinas havana 5 Melhor cachaça de Salinas? Antes, defina “ser de Salinas”
Os turistas que visitam a Havana podem ver o Chevrolet Lordmaster 1947, utilizado por Anísio para transportar e comercializar suas cachaças.

E há no futuro de Salinas espaço para inovações como a Minas D´Ouro, que em seu portfólio traz cachaças envelhecidas em madeiras com presença local, como o icônico bálsamo, mas também a amburana e o carvalho, e mostra que Salinas também tem mestres de adega criativos com blends dos mais diversos.

Minas D´Ouro 6 madeiras
Existe convivência harmoniosa e desejada entre tradição e inovação, como é o caso do portfólio da Minas D´Ouro que apresenta o premiado blend 6 madeiras: carvalho europeu, carvalho americano, amburana, putumuju, bálsamo e jequitibá.

Se produtores e consumidores zelarem pelo estilo — com critérios definidos, transparência e reconhecimento a quem preserva a herança enquanto a faz evoluir — Salinas seguirá como farol.
Que as destilarias históricas saibam se renovar com o tempo, e que as novas honrem a escola que projetou a região. Identidade é patrimônio vivo: quando bem cultivada, estrutura mercado, educa o consumidor e posiciona a nossa cachaça entre os grandes destilados do mundo.

Viva Salinas e a Escola Anísio Santiago.

Fotos: Marcos Zaniboni e Felipe Jannuzzi

Artigos relacionados

Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.