Barra Grande Alceu Figueiredo: a expressão de um território, um período histórico e uma tradição familiar

  • Publicado 11 meses atrás

Fiz uma análise da cachaça Barra Grande Alceu Figueiredo, uma bebida artesanal com identidade marcante, produzida com fermentação selvagem e destilada em um dos alambiques mais antigos em atividade no estado de São Paulo

Em 2015, tive a oportunidade de visitar pela primeira vez Itirapuã e conhecer a Fazenda Barra Grande, onde são produzidas as cachaças Barra Grande e Santo Grau. Naquela ocasião, fui prestigiar o lançamento da Santo Grau Pedro Ximenes e Santo Grau 5 Botas, as primeiras cachaças envelhecidas pelo método de soleira utilizando barris de carvalho americano ex-jerez, vinho espanhol fortificado.

Agora, uma década depois, retorno à destilaria da família Figueiredo Cristófani para descobrir as novidades que esse período trouxe e entender a visão da família para o futuro desse empreendimento com mais de 160 anos de história.

Situada na divisa com Minas Gerais, a Fazenda Barra Grande está a 850 metros de altitude, beneficiando-se de um clima chuvoso e de um solo barrento e argiloso, ideais para o cultivo de cana-de-açúcar e café. A região carrega a vocação paulista de extensos canaviais que se espalham pelo interior do estado, além da forte influência da cultura cafeeira, que mais tarde se expandiria para o sul de Minas.

Dessa vez, com mais tempo para explorar um dos alambiques mais antigos em operação no estado de São Paulo, pude conversar melhor com Maurílio Figueiredo Cristófani, quinta geração da família e responsável por manter vivo o legado da produção da cachaça de alambique.

A história de Maurílio está profundamente ligada à produção de bebidas, algo evidente nas pinturas e quadros espalhados pelo restaurante e empório da Fazenda Barra Grande. Sua veia empreendedora no setor vem tanto do lado materno quanto paterno.

A Indústria F. Cristófani & Cia.

O patriarca José Luiz Cristófani era filho de Francisco Cristófani, um imigrante italiano que chegou ao Brasil por volta de 1915, fugindo da Primeira Guerra Mundial. Francisco se estabeleceu em Ribeirão Preto, onde montou uma fábrica de licores e bebidas destiladas na Rua Saldanha Marinho, a F. Cristófani & Cia. Mais tarde, ao vender a fábrica, dedicou-se à produção de cadeiras e tacos de madeira, criando a “Tacos São Francisco”, que, anos depois, deu origem à Cristófani Madeiras.

Entre as décadas de 1920 e 1930, Francisco Cristófani produziu uma ampla variedade de bebidas, incluindo vermouth, fernet, vinhos de frutas, conhaque e anisette. Para quem estuda a história das bebidas no Brasil, é fascinante perceber que, já no início do século passado, existiam indústrias prolíficas em São Paulo impulsionadas por uma cultura de consumo bem estabelecida. Esse contexto evidencia como os imigrantes, especialmente os italianos, trouxeram e mantiveram tradições enraizadas na coquetelaria e na apreciação de destilados, contribuindo diretamente para a identidade das bebidas brasileiras – influência que pode ser vista, por exemplo, na criação do icônico coquetel Rabo de Galo em meados da década de 1950.

A Cachaça Barra Grande dos Figueiredo

Do lado materno, a tradição na produção de cachaça de alambique remonta a 1860, quando os primeiros destilados começaram a ser produzidos na Fazenda Barra Grande. A produção passou por gerações, mas enfrentou períodos de quase estagnação. Foi Alceu Figueiredo, tio-avô de Maurílio, quem reativou a paixão pela tradição da produção artesanal de cachaça.

A passagem de gerações foi marcada por um evento dramático: em 1998, um grande incêndio destruiu a sede da fazenda. Reconstruída em um espaço menor, a casa foi moradia de Alceu Figueiredo em seus últimos anos de vida. Três anos depois, em 2001, a quinta geração da família retomou a produção, com Maurílio Figueiredo Cristófani assumindo a direção do empreendimento.

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A sede da Fazenda Barra Grande foi abençoada em 13 de julho de 1896 por Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, então Bispo de São Paulo, mais tarde Arcebispo do Rio de Janeiro e 1º Cardeal da América Latina.

Sob o comando de Maurílio, a Fazenda Barra Grande passou a investir mais em práticas sustentáveis, equilibrando aspectos sociais, econômicos e ambientais. O uso de energia alternativa, técnicas sustentáveis na lavoura e a diversificação da produção – que inclui cafeicultura, pecuária, extração de madeira nobre e turismo rural – geram empregos e fortalecem a economia local, sendo a fazenda um dos principais geradores de emprego de Itirapuã.

A parceria com a Santo Grau

Em 1992, os produtores da cachaça Barra Grande firmaram uma parceria estratégica com a Natique, resultando no nascimento da Santo Grau Itirapuã. Esse rótulo foi concebido para integrar a trilogia “Cachaças de Origem”, ao lado da Santo Grau Paraty e da Santo Grau Coronel Xavier Chaves, cada uma representando um terroir distinto e reforçando o compromisso com a autenticidade e a tradição da cachaça artesanal.

A parceria ganhou novos contornos em 2013, quando a Osborne, renomada produtora espanhola de Jerez, adquiriu 51% da Natique. Com essa fusão de expertise, a Fazenda Barra Grande passou a incorporar métodos de envelhecimento diferenciados, conferindo uma identidade singular às cachaças ali produzidas.

santo grau barra grande Barra Grande Alceu Figueiredo: a expressão de um território, um período histórico e uma tradição familiar
Da esquerda para a direita – Renato Almeida Prado (Natique), Nando Chaves (Engenho Boa Vista da Santo Grau Coronel Xavier Chaves), Daniela Cristófani (Barra Grande da Santo Grau Itirapuã), Maurílio Cristófani (Barra Grande da Santo Grau Itirapuã), Paulo Pellota (Natique), Dudu Calegario Melo (Coqueiro da Santo Grau Paraty) e Luiz Henrique Munhoz (Natique).

Na época da aquisição, Maurílio teve a oportunidade de visitar vinícolas espanholas e estudar de perto como eram envelhecidos os vinhos e destilados da Osborne. Inspirado por essa técnicas centenárias, Maurílio decidiu aplicá-las ao envelhecimento da tradicional cachaça paulista, utilizando barris de carvalho previamente ocupados por vinhos espanhóis fortificados.

O resultado desse intercâmbio de conhecimentos pode ser apreciado nos rótulos Santo Grau PX e Santo Grau Cinco Botas, que seguem o método de soleira de envelhecimento – uma técnica cada vez mais utilizada pelos produtores de cachaça pelo Brasil.

Santo Grau Cachaças Raras
Santo Grau 5 Botas e Santo PX, envelhecidas pelo método soleira

A cachaça Alceu Figueiredo, um símbolo para resgatar uma tradição

A continuidade do projeto da Barra Grande depende do envolvimento familiar. Para que o legado da fazenda se perpetue, é essencial que a visão de futuro do negócio seja compartilhada por toda a família. E uma das qualidades de liderança de Maurílio é sua capacidade de unir talentos e integrar diferentes especialidades no negócio. Esse espírito colaborativo e de união familiar se reflete na renovação da identidade arquitetônica da fazenda, um trabalho conduzido por seu tio, Eduardo Figueiredo. Com o uso de tijolo, madeira e a combinação de cores terra cota, azul e verde, Eduardo equilibra o rústico e o sofisticado, preservando a história do local sem comprometer sua autenticidade.

Manter o futuro da cachaça Barra Grande significa, também, valorizar suas raízes e aquilo que a torna única. Preservar esse patrimônio histórico, mantendo o monjolo, a antiga hidrelétrica e o moinho centenário. Se a Santo Grau 5 Botas e a Santo Grau PX revelam o olhar atento para as inovações no mercado da cachaça, a cachaça Alceu Figueiredo, criada em homenagem ao seu tio-avô, é um símbolo que define o compromisso de Maurílio em preservar também a tradição e a essência da produção artesanal que define a Barra Grande.

A cachaça Barra Grande Alceu Figueiredo

A Barra Grande Alceu Figueiredo é uma verdadeira representante da cachaça raiz. Produzida sem armazenamento em madeira, com destaque aos aromas primários e secundários do destilado de cana, trazendo notas adocicadas, frutadas e fermentadas. Seu processo de produção segue um rigoroso método artesanal, utilizando fermentação com leveduras selvagens e destilação em alambiques de cobre.

A inspiração para essa cachaça surgiu quando Maurílio visitou alambiques durante o Festival de Salinas, no norte de Minas Gerais, e decidiu trazer toletes de cana java para a Fazenda Barra Grande. Embora pouco produtiva, essa variedade confere características sensoriais únicas à bebida.

Após a colheita, a cana é moída em até 48 horas. A extração do caldo ocorre em uma moenda movida por uma roda-d’água inglesa com 5,5 metros de diâmetro, da década de 1940. As águas do rio Itambé que geram energia para moer a cana, também fazem funcionar o moinho que transforma milho em fubá, ingrediente essencial para a fermentação.

No início da safra, utiliza-se o fermento caipira, feito a partir de fubá de milho, farelo de arroz, extrato de soja e maisena triturada. A fermentação ocorre com leveduras selvagens, e a destilação se dá em dois alambiques de cobre de 1000 litros, aquecidos por fogo direto.

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Victor Hugo Cristófani, Maurílio Cristófani, eu (Felipe Jannuzzi), Milton Lima e Bruno Videira, ao fundo a roda d’água da empresa inglesa Lingerwood

Análise Sensorial da Barra Grande Alceu Figueiredo

Teor alcoólico: 48%

Safra: 2023

Preço: R$ 90 – comprar com o produtor

Barra Grande Alceu Figueiredo Barra Grande Alceu Figueiredo: a expressão de um território, um período histórico e uma tradição familiar
48%, feita de cana java e fermentação caipira

Visualmente, a cachaça é incolor, com lágrimas densas e rosário intenso. No aroma, evidencia a complexidade da fermentação caipira, trazendo notas de azeitona, grama, picles, limão, pimenta-do-reino, iodo e alcatrão. Esse último pode surpreender paladares menos acostumados à identidade desse estilo de produção, tornando a cachaça uma bebida para apreciadores experientes.

No paladar, revela intensidade e complexidade, com notas defumadas e minerais. Seu perfil é autêntico, encorpado e sem concessões ao movimento de softização que vem impactando o mercado. Em uma época em que muitas bebidas são suavizadas (menos álcool, mais doces) para agradar a um público mais amplo e jovem, a cachaça Alceu Figueiredo se destaca como um refúgio para quem valoriza autenticidade, história e personalidade.

A Barra Grande Alceu Figueiredo é a expressão de um território, um período histórico e uma tradição familiar preservada ao longo das gerações. Ela é também uma cachaça feita seguindo o gosto de Alceu: potente, marcante, rústica. Ela não é para todos, é feita para um nicho específico, mas é inegável sua identidade e sua conexão com a cultura da cachaça artesanal do interior de São Paulo.

Essa edição especial é produzida com cana-de-açúcar Java e tem teor alcoólico de 48% vol., do jeito que Alceu gostava

Maurílio Figueiredo Cristófani, sobrinho-neto do homenageado.

A consciência sobre a importância de preservar a história dos antepassados, sem deixar de olhar para o futuro com conceitos como sustentabilidade, turismo rural e trazendo inovações ao processo de produção, como o uso das barricas vindas da Espanha, é o que sempre tornará a Barra Grande um destino cada vez mais relevante e um empreendimento com todos os valores e qualidades para seguir por mais muitas e muitas gerações. Maurílio já transmite esses propósitos ao seu filho e sobrinho, preparando a sexta geração para dar continuidade a essa história.

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Maurílio Cristofanni, Victor Hugo Cristófanni, Milton Lima, Bruno Videira, eu (Felipe Jannuzzi) na adega da Barra Grande em Itirapuã, São Paulo

Agradecimentos

Família Figueiredo Cristófani

Luis Malaquias e esposa

Milton Lima

Bruno Videira (autor de algumas fotos)

Marcos Zanebonni

Jacob Mardell

Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.