Cachaça e whiskey são bebidas bastante distintas. Em outro artigo, destaco as diferenças entre o destilado brasileiro e o whisky, seja ele americano ou não. No entanto, na jornada de descoberta da cachaça, é útil utilizarmos algumas analogias para explicar perfis de cachaça para consumidores acostumados a beber outros destilados. Em vez de focar nas diferenças, é didático também destacar as semelhanças. E o que cachaça e whiskey têm em comum é o uso do carvalho para envelhecimento da bebida.
Os Bourbons, whiskies produzidos nos EUA, são envelhecidos em um tipo específico de carvalho conhecido como carvalho americano ou carvalho branco (Quercus alba). Esta madeira é dura e densa, ideal para suportar longos períodos de envelhecimento e reter o destilado sem vazamentos. O carvalho branco possui também resistência natural à umidade e ao ataque de fungos, graças aos taninos presentes em sua composição. O processo de tosta e carbonização dos barris, conhecido como toasting e charring, carameliza os açúcares naturais da madeira, adicionando complexidade de sabores, como notas de baunilha, caramelo, coco e especiarias, além de contribuir para a lindas cores entre dourada e âmbar intenso.
Ao longo dos anos, graças ao trabalho de importadores, os produtores de cachaça têm acesso a barris de carvalho, já que essa madeira não cresce no país. E mais recentemente, eles podem envelhecer suas aguardentes em barris de primeiro uso ou virgens, que nunca foram usados para outras bebidas. Isso permite que a cachaça extraia todo o potencial da madeira, ao invés de utilizar barris de segunda mão já desgastados. Além disso, os produtores podem personalizar as tostas dessas barricas de carvalho, criando novas possibilidades de sabores.
As cachaças envelhecidas em barris de carvalho, especialmente com tostas médias e intensas, oferecem sabores característicos da madeira, como baunilha, toffee, coco queimado e defumado. Essas cachaças são ótimas sugestões de presente para quem aprecia os sabores amadeirados encontrados no Bourbon.
Se você aprecia whiskey americano ou quer presentear alguém que é apreciador, preparei uma seleção especial. Escolhi cachaças envelhecidas em carvalho americano, submetidas a diferentes tipos de tosta. Hoje em dia, muitos produtores de cachaça utilizam o carvalho americano, mas para essa seleção, priorizei aqueles que se dedicam quase que exclusivamente a essa madeira, sem misturas com outras, realçando o paralelo de cores, aromas e sabores entre a cachaça e o destilado de milho norte-americano.
E prepare-se para abrir a carteira, porque as cachaças não são baratas, e deveríamos desconfiar se fossem. Como diz o ditado, tempo é dinheiro! E se você quer mesmo experimentar os deliciosos sabores do carvalho, estamos falando de envelhecimentos de no mínimo dois anos. Vale cada centavo!
Aqui estão minhas sugestões de 5 cachaças para quem curte whiskey americano:
Valor: R$ 249,90 com o produtor

A Gouveia Brasil 44, assinada pelo mestre de adega Armando Del Bianco, representa com precisão o perfil deste alambique mineiro, evidenciando a habilidade na arte de envelhecer cachaças em carvalho americano. Esta versão é envelhecida por três anos em barris de 200 litros de carvalho americano virgens, com tosta 3 da ISC.
No aroma, sobressaem notas de castanhas, baunilha, tabaco e banana-passa. O corpo é intenso e amanteigado, oferecendo uma sensação aveludada ao paladar. Na boca, percebe-se uma harmonia equilibrada entre a madeira e o álcool, com sabores de baunilha, mel, noz-moscada, banana-passa e couro que se revelam em camadas. O final é longo e complexo, com uma doçura contínua e notas persistentes de baunilha, castanhas e especiarias, resultando em uma experiência muito agradável.
Eu gosto de beber a cachaça Gouveia Brasil 44 com pedras de gelo, que realçam os aromas da bebida e suavizam seu teor alcoólico de 44%, como o nome sugere. Essa potência alcoólica torna a cachaça ideal para ser usada também como base em coquetéis. Um exemplo é o coquetel criado por Rafael Welbert, que combina a Gouveia Brasil 44 com nibs de cacau, destacando os perfis aromáticos de castanhas e especiarias proporcionados pela tosta.

Valor: R$ 350,00 com o produtor

Quem visita a destilaria Mipibu, no Rio Grande do Norte, é logo recebido com um desafio: descobrir o que é o destilado branco oferecido por Fábio Dantas. Quase ninguém acerta. O produtor oferece aos visitantes um moonshine, uma aguardente de milho que não passa por madeira, também conhecido como whiskey branco ou white dog. Sem muita cerimônia, os turistas rapidamente demonstram sua preferência por outro líquido incolor da destilaria: a cachaça que pinga das panelas de cobre dessa centenária casa.
Se a base branca do whiskey não agrada, as madeiras entram em ação, transformando o líquido em um destilado que absorve toda a complexidade do carvalho americano. Agora, imagine colocar um líquido branco destilado da cana-de-açúcar, que já é agradável em sua forma pura, nessa mesma madeira. A lógica sugere que o resultado será um destilado incrível. E é exatamente isso que Dantas se propõe a criar.
Envelhecida por 4 anos em barris de carvalho americano de 200 litros que anteriormente continham o whiskey Buffalo Trace, essa cachaça Mipibu Ex-Bourbon apresenta uma cor âmbar brilhante com lágrimas moderadas. O aroma é complexo, destacando-se notas de noz-moscada, baunilha, caramelo, mel e banana. De corpo médio, proporciona uma sensação de boca cheia, sendo viva e bem interessante no paladar, com uma presença marcante de baunilha, acompanhada por nuances de tabaco, frutas maduras, toques florais e tomilho. O final é médio para longo, combinando baunilha com notas condimentadas de noz-moscada e uma breve, mas agradável, picância. Recomendo degustá-la com pedras de gelo para abrir ainda mais seus aromas.
Valor: R$ 625,00 com o produtor

Lucio Gama, de Paraty, no Rio de Janeiro, produtor da cachaça Pedra Branca, crio essa cachaça como um presente para sua esposa Grace. Lançada em 2023, a Pedra Branca Reserva da Grace é uma cachaça que comemora os oito anos de casamento do casal e os 40 anos de Grace.
Envelhecida por oito anos em barris de carvalho americano, a Reserva da Grace é a cachaça mais envelhecida já produzida por Lucio, com um lote exclusivo de apenas 400 garrafas. Sua cor âmbar brilhante e lágrimas lentas são acompanhadas por aromas sofisticados de baunilha, caramelo, chocolate, couro e um toque sutil de bolo de abacaxi. Na boca, apresenta uma textura aveludada, com sabores delicados de baunilha e chocolate, além de notas de toffee e couro. O final é de médio para longo, proporcionando uma experiência complexa e deliciosa.

A cachaça Porto Morretes Premium é a única hoje da destilaria paranaense comercializada no Brasil. Ela é envelhecida por três anos em barris de carvalho americano de 200 litros, que já armazenaram Bourbon. Essa maturação especial, com barris de diferentes níveis de tosta – leve, média e intensa – dá à cachaça uma cor âmbar brilhante e lágrimas moderadas. No aroma, ela mistura baunilha, mel, caramelo e um toque defumado com leves notas de tabaco.
Ao provar, a Porto Morretes Premium é intensa e enche a boca com sabores de baunilha, melado, gengibre e toffee, mantendo a suavidade das tostas. O final é longo e prazeroso, deixando um gostinho de bala de caramelo.
Eu recomendo o preparo de em um Old Fashioned, guarnecido com laranja.

Foto de Allan Francis na Unsplash
Valor: R$ 250 com o produtor

A cachaça Jeceaba Moderna foi lançada como uma edição especial em homenagem aos 100 anos da Semana de Arte Moderna no Brasil. Da nossa seleção ela se diferencia porque é a única que leva também madeira brasileira na composição, no entanto, sem influenciar muito nas características da bebida, deixando todo o protagonismo para o carvalho americano.
Seu processo de envelhecimento dura quatro anos, sendo dois em tonéis de jequitibá de 600 e 2000 litros e mais dois em barris novos de 250 litros de carvalho americano com tosta 3.
Com uma tonalidade âmbar e lágrimas que descem lentamente pela taça, a Jeceaba Moderna oferece um aroma complexo, com notas de chocolate amargo, caramelo, leve toque de esmalte e avelã. Possui um corpo robusto, que se apresenta firme no início, mas logo se torna suave e envolvente. No paladar, os sabores se intensificam, ressaltando o carvalho tostado, couro, avelã, licor de amêndoa e baunilha. O final é longo e agradável, marcado por notas de tosta, chocolate e especiarias como pimenta branca. Esta cachaça é ideal para aqueles que apreciam tostas intensas.
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Em 2010, Felipe Jannuzzi fundou o Mapa da Cachaça, premiado projeto cultural com reconhecimento internacional e a principal referência sobre cachaça no mundo. Felipe é um dos sócios fundadores da Espíritos Brasileiros, empresa pioneira no mercado de produção de gin no Brasil, responsável pelo premiado Virga, primeiro gin artesanal brasileiro e o único no mundo que leva doses de cachaça na receita. Desde 2021, é um dos sócios da BR-ME, empresa especializada em produtos brasileiros, como vinhos, cafés, azeites, queijos e chocolates.
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