A linha Santo Mario Gentileza é o lançamento mais recente do Engenho Santo Mario, em Catanduva (SP), e chega com dois rótulos que ajudam a explicar dois conceitos pouco conhecidos do grande público: o que é uma cachaça tridestilada e multifiltrada, e o que a legislação brasileira passou a permitir quando o assunto é acondicionar a bebida com fragmentos de madeira. São duas Gentilezas — uma prata e uma ouro — engarrafadas a 38% e em garrafas de 700 mL, fermentadas com leveduras autóctones selecionadas da própria fazenda.
A casa da família Seghese tem tradição em experimentar: a história ítalo-brasileira do Engenho Santo Mario começa com uma produção improvisada no interior de São Paulo e segue até um portfólio que hoje cruza madeiras nativas e importadas, sendo uma das referências em São Paulo. A Gentileza é mais um capítulo dessa busca.


A Gentileza Prata é uma cachaça branca, mas com um processo de produção fora do comum. A maioria das cachaças é destilada uma única vez; algumas passam por duas etapas, como explicamos no texto sobre cachaça bidestilada. A Gentileza Prata é descrita no rótulo como tridestilada — e a explicação está no alambique de três corpos da Santo Mario.
“O alambique de três corpos não faz uma bidestilação: ele faz uma destilação ‘e meia’. No primeiro corpo, o vapor enriquecido cai no segundo, então a destilação do segundo já parte de um vapor que veio enriquecido do primeiro. Como passamos a cachaça duas vezes por esse alambique, e cada ciclo completo equivale a uma destilação e meia, tomamos uma licença poética de chamar a cachaça de tridestilada. E o interessante é que ela mantém o perfil sensorial de uma cachaça de alambique — não vira aquela cachaça ‘chapada’ de coluna —, mas entrega muito em suavidade.” — Fabio Seghese, , neto de Mario Seghese, Engenho Santo Mario
O efeito prático é um líquido mais limpo, leve e suave a cada ciclo — caminho parecido com o do uísque irlandês. A diferença em relação à destilação em coluna — que entrega uma bebida muito neutra, com menos congêneres — é que o alambique de cobre preserva o perfil sensorial da cachaça de alambique. A aposta da Santo Mario é justamente essa: ganhar suavidade sem apagar a identidade da bebida.
Ao processo de destilação soma-se a multifiltragem: a Gentileza passa por sucessivas filtragens em carvão de casca de coco. O carvão ativado retém impurezas, óleos e parte dos compostos que turvam ou pesam a bebida, reforçando a limpidez e a leveza buscadas no rótulo. A dupla destilação em alambique três corpos e multifiltragem trabalham, portanto, na mesma direção: uma cachaça branca pensada para ser macia, tanto pura quanto em coquetéis.
A proposta técnica casou perfeitamente com a identidade de uma cachaça chamada Gentileza!
A Gentileza Ouro parte da mesma base e é acondicionada em contato com fragmentos (chips) de carvalho e amburana. Aqui entra o segundo conceito interessante do lançamento — e ele é, antes de tudo, jurídico.
Tradicionalmente, a cachaça ganha cor e aromas de madeira descansando em tonéis e barris. O uso de pedaços soltos de madeira em contato com a bebida só foi formalizado pela Portaria MAPA 539/2022, que estabeleceu o atual padrão de identidade e qualidade do setor. A norma permite acondicionar a cachaça com fragmentos de madeira para conferir características sensoriais, desde que a madeira seja usada ao natural ou apenas torrada (sem combustão), sem aditivos aromáticos, e em pedaços de tamanho mínimo definido.
O ponto que mais gera confusão é a classificação. Pela portaria, uma cachaça que teve contato apenas com fragmentos de madeira não pode ser chamada de envelhecida — ela é uma cachaça acondicionada. O rótulo, inclusive, precisa declarar a expressão “acondicionada com (tipo de fragmento) de (nome da madeira)” e não pode trazer nenhum termo que associe o produto ao envelhecimento. A diferença entre cachaça armazenada e envelhecida deixou de ser só técnica e virou uma questão de rotulagem legal. Vale lembrar que termos como “ouro” e “prata” continuam liberados, como mostramos no guia sobre os tipos de cachaça.
Na prática sensorial, a aposta da Gentileza Ouro é o encontro de uma madeira exótica e uma nativa: o carvalho costuma trazer baunilha, caramelo e um amadeirado mais “clássico”, enquanto a amburana entrega o doce especiado de canela e cumaru que marca tantas cachaças. A combinação busca um meio-termo aromático, em um formato que dá ao produtor mais agilidade do que a maturação longa em barril.
O nome da linha guarda uma história de família. A Gentileza nasceu no lugar de um rótulo que a Santo Mario havia criado com o nome de Jandira, esposa de Mario Seghese e avó de Fabio Seghese, hoje à frente da nova geração do engenho. Uma disputa no registro da marca levou a casa a buscar um caminho alternativo — e a palavra “gentileza”, atributo que os clientes sempre associaram a Jandira, virou a homenagem simbólica.
“A Gentileza entrou no lugar de uma cachaça que a gente tinha feito com o nome da minha avó, a Jandira. Por uma dificuldade no registro da marca, acabei indo para um plano B — e a ‘gentileza’ era um atributo que as pessoas sempre ligaram a ela. Minha avó vivia dando mudas das flores que plantava pelo engenho: os clientes iam lá, pediam, e ela dava. Era a gentileza em pessoa. Por isso os rótulos têm essa temática de flores, totalmente ligada a ela, e se conectam com o painel que pintamos em sua homenagem. É uma homenagem indireta, simbólica, a tudo o que ela representou para a gente e para os clientes.” — Fabio Seghese

As flores que adornam o engenho — plantadas por Jandira — são as mesmas que aparecem no grande mural pintado em sua memória e, agora, nos rótulos delicados da nova linha. O que começou como contorno a um problema de marca acabou virando, nas palavras do próprio Fabio, uma solução mais feliz do que o projeto original.
As duas Gentilezas são destiladas no alambique batizado de Alambique Jandira, um equipamento também conhecido como três corpos ou alegria. A fermentação usa leveduras nativas selecionadas da fazenda, em parceria de seleção que padroniza o cultivo sem abrir mão do terroir do interior paulista.
A Gentileza Prata (38%, 700 mL) é a expressão tridestilada e multifiltrada, voltada à leveza. A Gentileza Ouro (38%, 700 mL) é a versão armazenada com chips de carvalho e amburana, em busca de cor e complexidade aromática sem o tempo de um envelhecimento tradicional. Juntas, sintetizam bem o momento da cachaça: um setor que combina técnica de destilação, novas formas de trabalhar nossas madeiras e uma legislação que finalmente acompanhou práticas que já existem em outras categorias de destilados pelo mundo.
As duas ainda não passaram pela avaliação às cegas do painel do Mapa da Cachaça — quando isso acontecer, as notas e o perfil sensorial completo entram nas fichas da Gentileza Prata e da Gentileza Ouro.
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O Mapa da Cachaça é um projeto cultural e educativo criado com o objetivo de divulgar e valorizar a cachaça, que é um patrimônio cultural e um dos símbolos da identidade brasileira.
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